Ter sabedoria ou enlouquecer

picture (4)Está cada vez mais difícil saber o quê, do quê e como pensam os contemporâneos, especialmente os de minha geração. Mesmo porque cada um tem a sua própria história. Sei, no entanto, haver angústia. E perplexidades e aturdimentos. Em cada um, essa agonia dói de maneira diferente. Para uns, pouco; para outros, a machucadura é maior. E há quem finja não se importar. Mas é impossível fugir à grande alma universal: o homem partilha a dor alheia, como colheita – ainda que amarga – de nossa semeadura humana comum.

De dor, sabe apenas aquele que a conhece na própria carne. De fome, entende-a quem já a conheceu. Perdas, não há quem não as tenha. Queiramos ou não, a vida é um percurso feito de carências. E são elas que fortalecem as fibras da alma. Quando se caminha muito, é possível, da frente para trás, olhar a estrada percorrida. E, então, dizer dos obstáculos existentes, de precipícios, de trilhas equivocadas, de encruzilhadas sedutoras. Quem inicia a caminhada vê a longa estrada pela frente. Ou enfrenta às cegas ou pede informações.

Sei lá, pois, o que pensam ou sentem os de minha geração. Sei do que venho sentindo, da, talvez, única e última escolha que me resta: ou tento ser sábio ou enlouqueço. Ainda mais grave: ou aceito a pouca sabedoria que, apesar de mim mesmo, o tempo me traz, ou me ridicularizo. E, então, ridículo, enlouqueço por não aceitar esse mínimo do aprendizado da vida. Velhos tolos são mais ridículos do que jovens com tolices próprias da juventude. Quem mais triste: um velho infantil, um jovem senil?

Estou tentando dizer, apenas, que os moços precisam de nós. Tenho sido testemunha da perplexidade deles, no doloroso privilégio de ouvir jovens, de estar com eles, de atendê-los em suas dúvidas e – dou-me o direito à franqueza – descobrir a ignorância a que foram lançados. Com exceções tão raras que se tornam estranhas, é uma geração epidérmica. E inocente de sua própria fragilidade. Sinto-me culpado, não sei o que pensam homens e mulheres de minha geração. E a culpa é de, tendo aprendido alguma coisa, recusar a admitir esse mínimo de sabedoria, como se fosse sinônimo de fim de vida, de senilidade.

Nestes últimos meses, temos atendido dezenas de jovens. São estudantes tentando cumprir tarefas propostas por seus professores. Então, entendi: há professores e alunos quase com as mesmas idades. E, por isso mesmo, aturdidos, perdidos, soltos na malha do tempo, apartados da história, aprisionados em pequenos espaços. Não têm culpa, mas não sabem o que fazer ou para onde ir. Perguntam sem sequer perceber que, na verdade, pedem socorro. Anestesiados, não se dão conta disso. Há o sonambulismo de quem não quer ou não consegue acordar.

São recados à minha geração, a muitos que não sabem envelhecer. A vida não nos pede sejamos tristes ou que nos aposentemos também dela. Não nos exige deixemos da alegria, do amor, de ter ilusões. Mas que saibamos fazê-lo com altanaria e com gotas da sabedoria de viver. Que trazem novos prazeres, imemoriais: do bom conselho, da paciência, da tolerância, da compreensão e da aceitação. Apenas quem viveu entende quem vive.

Tempo de sabedoria não é mais o de buscar honrarias e títulos e cargos –mas o de contar. Sábios recolhem-se, ficam à espera. Tribos africanas levam, reverencialmente, seus anciãos e mestres ao alto dos montes para que – lá e em silêncio – eles ouçam o que dizem as nuvens e, ao povo, transmitam mensagens dos céus. Insisto: as aves avisam.

Moços pedem socorro. Querem ouvir. Velho, ou é sábio ou enlouquece. De minha parte, conto para não enlouquecer. Bom dia.

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