Tipos populares

João Francisco dos Santos, tipo popular carioca conhecido como “Madame Satã”.

Com exceção da Madalena, confesso não saber mais de nenhum tipo popular interessante. Aliás, temo por mim – que, talvez, não tenha mais olhar de encontrá-los – e temo, também, por nós, que, possivelmente, nem mais saibamos vê-los. Os tipos populares eram como que poções mágicas da vida da cidade. Infeliz da criança que nunca se divertiu – ou se deslumbrou ou se assustou – com homens e mulheres diferenciados.

Lembro-me de alguns. E o inesquecível, guardado no coração, foi Nhô Lica, o catador de pedras que pensava fossem, algumas delas, diamantes. Através do gradil do quintal da casa de meus pais, eu o esperava passar, todas as tardes, no mesmo horário. Era pouco antes de o banco Commercial – cujo gerente era seo Gustavo – fechar. Nhô Lica, a passos lentos, terno surrado, guarda-chuva em punho, passava com os bolsos pesados das pedras e pedregulhos catados à beira do rio. Seo Gustavo o esperava à porta do banco e, gentilmente, recebia as pedras e as guardavas num cofre – o cofre do Nhô Lica – como se fossem um tesouro. E eram tesouros, pois Nhô Lica conseguia enriquecer a imaginação e despertar os sonhos das pessoas.

Algumas tardes por semana, meu pai me levava ao Clube de Regatas, para acompanhá-lo nos esportes que ele praticava, especialmente natação e remo. Víamos Nhô Lica, garimpando as margens do rio, íamos ajudá-lo. Juro que, então, comecei a acreditar que as pedras eram mesmo diamantes, empolgando-me quando achava uma diferente. Nhô Lica as avaliava e escolhia as que ele aceitava como jóias preciosas verdadeiras. Quando ele morreu, o Monsenhor Rosa – outro tipo inesquecível de Piracicaba – foi pedir, a seo Gustavo, as pedras do Nhô Lica para que jazessem no piso da catedral. Estão lá, ainda hoje, enterrradas.

Outro de que não me esqueço: Zinho Muié. Foi o precursor, acho eu, do travestismo em Piracicaba. Cabeleireiro, manicure, maquiador de mulheres, Zinho Muié – com seus requebros e rebolados – atendia as melhores famílias da cidade, sendo recebido com respeito e carinho. Mas, nas ruas, a molecada o perseguia: “Zinho Muié, Zinho Muié…” E ele respondia: “Zinho Muié seu rabo que é.”

E, por falar em rabo, havia também o Bento Chulé, dono de um barzinho próximo ao Grupo Moraes Barros, onde se faziam deliciosas cocadas, pés de moleque e empadinhas. Correndo em direção ao Parque Infantil – próximo de onde está, hoje, a nova biblioteca – a molecada passava, gritando: “Bento Chulé, Bento Chulé…” E ele, ranzinza, mas sem olhar para os garotos: “Seu rabo que é…”

E tinha o Espetete, e tinha o Vicente Bilheteiro, e tinha o Zé Galinha. E tinha a Neuzona, rainha do Carnaval, e o Neguito, o maior e mais dedicado carnavalesco de nossa história. E Estefânia, a prostituta que era doutrinadora comunista, fazendo passeatas pela cidade contra o “imperalismo”. E o Juquita de La Carne Fraca, impecavelmente vestido em seu terno branco, gravata borboleta, a cara igualzinha à do Amigo da Onça, que prometia parar de beber mas que não resistia, lamentando-se: “La carne é fraca…”. E o Cabo Júlio, exemplo de policial, amado pelas crianças, querido pelas famílias que o tinham como protetor?

Eram muitos, muitos os tipos populares. Amados, queridos, com os quais todos brincavam nos limites, porém, do respeito e da consideração. Deles, dizia-se serem loucos, os “loucos da aldeia”. Olhando, agora, o caos e o desrespeito, o individualismo e o estilo de vida materialista, confesso sentir falta daqueles “loucos benditos”. Pois estamos, agora, diante de uma maldita loucura coletiva, suicida e sem graça. Bom dia.

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