Tony

Ainda hoje, não entendo o que fui fazer em Las Vegas. Não sou jogador, detesto territórios áridos, desertos me assustam. Foi-me inexplicável ter visitado aquele lugar, em meio a uma viagem agradavelmente longa. Ora, Las Vegas nunca me despertou qualquer interesse. E, no entanto, lá estava, eu, naquele deserto, naquela aridez, iluminado por luzes artificiais abundantes enquanto, durante o dia, a luz se espalhava apenas por areias, como se os seres vivos fugissem dela.

O fato é, pois, que lá me vi em Las Vegas Na década dos 1980. Cheguei a jogar em maquininha de moedas e confesso ter-me assustado com o fascínio que o jogo desperta, com a sedução, o embriagamento. Lembro-me de ter-me proposto gastar até o máximo de 200 dólares. E tanto foi assim que, para o cassino, não levei nada mais do que os míseros punhados de dólares. Foi delirante. Cheguei a ganhar, a partir da máquina que vomitava moedas, mais de quatro mil dólares. E, se eu fosse racional, teria parado naquilo, com mais dinheiro para ampliar a minha viagem a outros países das Américas. O delírio, no entanto, foi maior. Continuei jogando e jogando. E comecei a perder e fui perdendo. No final da história, lá se tinham ido os meus 200 dólares.

Penso nessas coisas a partir das apresentações de Tony Bennet no Brasil. Ora, eu tenho quase todos os CDs dele, álbuns que me encantam e estimulam romances, momentos indefiníveis de prazer estético. Tony é um dos nossos preferidos companheiros musicais, ao lado, entre outros, Frank Sinatra, Tom Jobim, Vinicius e Chico, Rod Stewart, Nat King Cole. São eles a pausa e o intervalo para o descanso de Bach, Mozart, Beethoven. No entanto, cometi o sacrilégio de minimizar Tony Bennet, vendo-o cantar em Las Vegas.

Foi uma besteira minha imperdoável, que eu tento justificar, com indulgência para mim mesmo, como fruto da triste década de 1980, tempo de decadência, de ressacas paralisantes. Hoje, vendo imagens de sua apresentação no Brasil, no esplendor de seus 80 anos, fico apalermado de mim mesmo. Pois, naquelas poucas noites em Las Vegas, fui a teatros, cassinos, assisti a espetáculos em que as principais atrações eram Lauren Baccal, Rachel Welch. E Tony Bennet. Para mim, eram exibições de estrelas decadentes, como que um circo mambembe.

Agora, sinto vergonha. Em Las Vegas, ao vivo, não vi, não enxerguei, não admirei o admirável talento desse intéprete extrordinário. E, agora, vendo-o sobreviver ao tempo, ao mundo, às novas gerações, sinto ser uma bênção para todos nós e, para mim, acho que uma reconciliação. Bom dia.

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