Tornar-se miosótis

picture (17)Ainda hoje, a controvérsia é grande em relação aos versos de Terêncio: “sou homem; nada do que é humano me é estranho.” As coisas humanas podem não ser estranhas aos humanos, mas algumas delas não deixam de ser esquisitas. Pelo menos de minha parte, ando estranhando muita coisa. Algumas ou quase todas, consigo compreendê-las. Mas nem sempre as entendo.

Ora, aprendi a conviver com divergências e a respeitá-las. O mundo seria monótono se nos comportássemos de maneira sempre retilínea. Mas, convenhamos, há coisas esquisitas. E a esquisitice depende de nossos referenciais e escolhas, não os dos outros. Acho esquisto, por exemplo, morrer e ser enterrado.

Há algum tempo, falei, ao meu amigo Cesário Ferrari, que gostaria que ele providenciasse, caso eu morra, a cremação de meu corpo. O Cesário recusou-se, querendo que seu seja sepultado, lembrando a sacralidade dos cemitérios. Duas coisas: a primeira, é que me recuso a morrer, briga que manterei com Deus até o máximo de minhas forças. A segunda: cemitérios me encantam, como história, como memória, como narrativa do passado. Mas não quero estar neles, dentro de meu projeto de ressurreição. Isso, se eu morrer, pois lá me vou eu fazendo e renovando acordos com Deus. Já vi chegar-me a hora, escapei. Escaparei outras vezes. O Jairinho Mattos, num programa de rádio, me perguntou: se houvesse céu, o que eu gostaria de ouvir de Deus se para lá eu fosse? Não hesitei: “Pode voltar, meu filho. Você chegou antes do tempo.”

Uns pensam na vida em demasia. Outros, em demasia, pensam na morte. . Enquanto houver fome de viver, há-se que viver. Fome de vida faz o mundo ficar pequeno. Pois basta um olhar apaixonado às coisas, às maravilhas para se sentir o desejo de saborear, de provar, de degustar.

A cemitérios, vou por curiosidade histórica. Mas a poucos enterros, a poucos velórios. Ora, morro quase todos os dias, mortes de ilusões, de crenças, de sonhos. Mas não me enterro, não me sepulto, não fico em jazigos. Essas minhas mortes são minhas, ninguém tem nada a ver com elas. E, por isso, não permito que me exumem, que me dessepultem, que me desenterrem de meus soterramentos. Mas o enterro da carne, esse não gostaria de ter. Quero-me transformado em cinzas, em adubo que me possibilitará ressurreições, muitas. problema meu.

Recuso-me a ficar pensando em meu túmulo pela amarga experiência que vivi, a de estar morto, pensando estar vivo, algo que já contei. Foi numa exuberante manhã de céu azul, de brisa refrescante, de fragrância de flores vindas do jardim. O mundo parecia estar cantando um hino de maravilhas, ou pedindo que as maravilhas fossem saudadas. A falecida mãe de meus filhos, generosa, cuidava do meu café da manhã. E, então – sem perceber o mundo exultando ao derredor – eu lhe perguntei o que ocorrera na noite anterior, o capítulo da novela que eu não vira: “quem matou Odete Roitman?”. E, como fulminado por um raio, tive a certeza, naquela pergunta, de que eu estava morto e não sabia, a certeza de que eu me sepultara dentro de minha casa. Meu lar, meu túmulo, foi a terrível e dolorosa revelação. Então, ressuscitei.

Cremado, quero minhas cinzas tornando-se adubo de flores, nuns vasinhos de minha varanda, em árvores que amo e numa outra, lá da Rua do Porto. Quero um vaso com miosótis, pois me encanta o nome pidonho e quase triste que o povo lhes deu: “não esqueça de mim”. Em cada Primavera, serei miosótis, tentando colorir a vida de quem não se esqueceu de mim. Apenas isso. E bom dia.

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