Trabalho, o custo humano

cigarra_formigaToda vez que se reflete sobre trabalho – ou quando se comemora um dia para homenageá-lo e ao trabalhador – acabo por me lembrar da fábula de La Fontaine, sobre a formiga e a cigarra. Não a versão verdadeira, a dele. Mas uma outra, que surgiu – partindo da clássica – com uma reflexão moderna.

É o seguinte. Como na versão clássica, a formiguinha trabalhava muito, esfalfava-se, cumpria todos os seus deveres, cansava-se, enquanto a cigarra ficava na folga, divertindo-se, indo a baladas, boêmia e preguiçosa. A cada inverno, lá se ia a cigarra pedindo abrigo e asilo à formiga que, generosa, lhos dava. E assim correu-lhes a vida. E assim passava-se o tempo.

Em certo inverno, a formiguinha ouviu baterem-lhe à porta. Ao dirigir-se para abri-la, pensou na cigarra, certamente com frio e com fome. E era mesmo a cigarra. Só que, vestindo um maravilhoso casaco de peles, com pérolas no pescoço, diamantes nos dedos. E, na rua, uma limusine com motorista. Toda feliz, a cigarra abraçou a formiguinha contando-lhe: “Amiga querida. Vim aqui para lhe agradecer tudo o que você fez por mim nestes anos todos. E, também, para me despedir. Estou indo para Paris, no jatinho particular de meu amante, com quem irei morar.”

A formiguinha, acabrunhada, quase sem entender aquele paradoxo da vida, perguntou: “Você irá morar em Paris?” A cigarra, exultante, confirmou: “Sim, querida. Em Paris, mantida por meu amante.” E a formiga: “Então, vou lhe fazer um pedido. Se você, lá, encontrar o tal de La Fontaine faça-me o favor de lhe dizer que eu o mandei para a p… que o pariu.”

Para se ver, pois, que o mundo e a vida não são necessariamente justos. E que, ao contrário dos filmes de cinemas, o mocinho nem sempre vence. Aliás, especialmente em nossos tempos, os bandidos têm vencido galhardamente na figura de corruptos de alto coturno, de políticos, homens públicos “et alii”. O enriquecimento, rápido e imoral de um número crescente deles apenas confirma, infelizmente, a sabedoria popular: “Quem trabalha não tem tempo de ganhar dinheiro.” Para não se ir muito longe, busquemos exemplos em Brasília.

O fato, porém, é que o trabalho continua sendo uma das mais profundas preocupações humanas, desde que, segundo a lenda da Criação, o Criador falou a Adão e a Eva: “Vocês ganharão, a partir de agora, o pão com o suor de seu rosto.” É verdade que isso nunca valeu para os espertalhões, para imorais e amorais. Mas tem valido para bilhões de seres humanos ao longo da história e ainda hoje. A pergunta agônica que permanece: o trabalho dignifica ou avilta o homem?

Depende do homem, depende do trabalho. No entanto, o trabalho é uma atividade que, em sua essência, revela a dependência humana em relação à natureza, a necessidade do ser humano para sobreviver utilizando ou modificando as coisas naturais. Consciente dessa dependência, o homem faz, do trabalho, uma reação ao elaborar, utilizar os elementos naturais. E, finalmente, há o custo humano do trabalho – talvez, “o suor do rosto” – que resulta no preço da fadiga, do esforço, até mesmo do sofrimento.

Desde tempos imemoriais, há a noção bíblica do trabalho como castigo, maldição divina como conseqüência do pecado original. Ao mesmo tempo, porém, era um preceito religioso,um dever dos homens. Tanto assim é que, num texto famoso, São Paulo firmou o princípio: “Quem não quer trabalhar não coma.” Pois, se comesse sem trabalhar, iria onerar os demais com o cansaço e o sofrimento. Aliás, dois dos maiores filósofos cristãos – Agostinho e Tomás de Aquino – seguem a mesma linha de raciocínio. E na “Utopia” – a célebre obra de Morus – está a solução socializante das relações humanas: todos os membros da cidade ideal têm a obrigação do trabalho, na repartição das atividades.

Na verdade, porém, o trabalho digno dignifica, sim, o ser humano. Mais do que isso: o trabalho e a produção do homem são o próprio homem. A grande questão não está, pois, no trabalho, mas nas condições físicas e sociais em que ele é realizado. Pois o trabalho enobrecedor não rouba ao homem a sua vocação para a vida contemplativa, o seu dom da reflexão e da espiritualidade. Quando De Massi nos trouxe a noção do “ócio criativo” – menos horas de trabalho para mais horas de criação espiritual e de alegria – ele nada mais fez do que dizer – diante da materialista e pérfida visão de vida atual – que vivemos a nostalgia da vida contemplativa, da busca da vida instintiva que – não fosse o trabalho em seu sentido perverso – nos levaria, inevitavelmente, ao reencontro do paraíso perdido. Bom dia.

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