Última reflexão do poeta Malavolta

Uma das honrarias com que fui brindado pela vida está ligada a Eurípedes Malavolta, esse amigo querido que se foi num dia de chuva, de temporais, com nesgas de céu limpo e raios de sol. Tinha que ser assim: chuva de pranto pela morte de Malavolta, chuva de bênçãos pela maneira especialíssima como ele foi digno da vida e de como a honrou.

Quando, há poucos anos, Eurípedes Malavolta recebeu, tardiamente, o título de Cidadão Piracicabano, foi brindado com essa que, para mim, se me tornou uma das honrarias de minha vida: ele quis fosse eu, seu amigo, um dos oradores que o saudariam no Salão Nobre da ESALQ. Foi uma noite de nobreza. E a nobreza maior se revelou na humildade de Eurípedes Malavolta – detentor de tantos títulos e prêmios – revelando a sua imensa alegria por receber a cidadania piracicabana que poucos, como ele, tanto mereceram.

Confesso estar aturdido com a notícia da morte de Malavolta, meu amigo Malavolta pelo menos há 45 anos, de quem posso dizer ter sido companheiro de fé, irmão, camarada. No último dia 3 de janeiro, ele me enviou, como a outros de seus amigos, um e-mail que era, na verdade, o seu último poema, pois Malavolta foi um poeta notável, alma lírica, que não se escondeu por trás da racionalidade e da aparente frieza científica. Naquele último contato, cobrei-o do vinho que não tínhamos bebido no aconchego de sua casa, ao som de Brahms ou de Bach, ou da mais recente produção clássica que lhe teria chegado do exterior. Malavolta era um esteta, alma de artista. E, mais do que a ciência, quem perde com a sua ausência é a Vida. Ele foi um cultor da Vida e um cantador dela, homem que conseguiu o que, pelo menos para mim, sempre me pareceu um milagre: conciliar, conjugar, harmonizar a ciência e a fé, a profunda fé católica que ele professou por toda a vida.

Dou-me o direito de divulgar aquele e-mail, seu último canto, uma despedida, a homenagem que pretendo, também em nome desta terra que ele tanto amou, prestar-lhe:

“Sei que vocês tiveram um Merry Xmas. Junto de gente que gosta de vocês e de quem vocês gostam.

No almoço aqui em casa faltou a família vizinha da frente há não sei quantos anos. Jorge e Walkyria não faltaram. O Natal traz lembranças de quando éramos crianças. A expectativa dos presentes trazidas por Papai Noel. A missa do Galo que hoje quase não é mais celebrada. Quais eram as cantigas?

Com certeza não tinham sotaque anglo saxônico. Era divertido ver as crianças no dia seguinte com os brinquedos novos: pião; yo-yo, velocípede, bicicleta (Papai Noel rico), bola-de-capotão. Até o próximo Natal.

Como foi a passagem do ano? Família ou sociedade? No intervalo dos rojões consegui dormir. Mas tive um dia 01.01.2008 dos mais agradáveis. Liguei a televisão na TV Senado. A Orquestra Sinfônica de Berlim estava tocando a Rhapsody in Blue. O centro era um trio de músicos negros – um pianista cego, um contrabaixo e um baterista. Eles fizeram voltar a Rhapsody às origens – o jazz. Uma beleza. O regente é Seiji Osawa que dá um show. Não usa batuta, dirige a orquestra com as mãos, com o corpo inteiro, com as expressões do rosto e com a cabeleira grisalha de Samurai do século XXI. Como é que o homem pode fazer coisas tão bonitas de um lado e cometer barbaridades do outro, Vocês sabem? Eu não sei. Ontem fui à missa das 9 no Lar dos Velhinhos. E como faço todos os dias, rezei por vocês todos.

Seu amigo

Eurípedes

( Para Noemi e Martha, Malavolta para Vera, Cecílio, Jorge,

Walkyria, Yamada e Sebastião.) “

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