Um fácil fim do mundo

Basta refletir um pouquinho para ficar aterrorizado. Pois concluir-se-á ser absolutamente falsa a nossa certeza de liberdade plena e total, de decidir conforme a nossa própria vontade. Estamos escravizados mais do que nunca. E numa dependência, esta sim, total e plena.

A formidável tecnologia de nossos tempos parece ter impedido qualquer outra forma de vida a não ser a partir e através dela. Nada mais se faz sem o computador, sem a internet, sem o mundo digital. Nada. Pois o muito que, individualmente, alguém possa fazer acabará ficando apenas com ele e para ele. Se todos os supermercados fecharem, se a vendinha da esquina não funcionar, quem sabe, ainda, plantar batatas? E se souber e colhê-las, haverá de tê-las apenas para si.

A cada apagão de eletricidade, confesso tremer na mais oculta fibra da alma. Pois é quando descubro, conheço e fortaleço a consciência da minha absoluta dependência, dessas minhas fragilidade e impotência diante das coisas. Sem energia elétrica, nada funciona. Nem a água de nossas torneiras. Não funciona o computador, paralisa-se a internet, comércio e indústria entram em colapso, a segurança pessoal e coletiva fica vulnerável, não há como reagir, não há o que fazer. E os medos ancestrais nos dominam a todos, como se voltássemos ao mundo das trevas. Ou, pior ainda, como se dele nunca tivéssemos saído.

Por isso, cada vez mais me convenço de nossa necessidade vital de preservar as tribos indígenas. Porque serão elas, sem qualquer dúvida, que nos ensinarão a viver e a sobreviver quando ou se os satélites explodirem no ar, quando e se as usinas de energia deixarem de funcionar. Para que servirão todos os imensos carrões, se postos de combustível não funcionarem? E todas as fabulosas transações bancárias, as especulações nas bolsas, as fortunas virtuais – de que servirão, para onde irão, se a comunicação eletrônica desaparecer em virtude da inexistência da energia elétrica ou nuclear ou seja lá que raio de energia for, a não ser a que está no corpo humano?

Índios se tornam cada vez mais importantes, especialmente quando o mundo civilizado se vai tornando povoado por multidões de bárbaros. Nenhum morador das florestas amazônicas, ninguém dos povos das matas, nenhum deles sequer soube do apagão. E viveram normalmente suas vidas que, para nós, são vidas apenas primitivas, como se isso fosse um mal, um atraso, prova de ignorância total. Mas, sem energia elétrica, de que vale toda nossa ciência, de que valem o nosso conhecimento e teorias, se nos tornamos totalmente impotentes para qualquer ação?

É aterrador. Um temporal, um vendaval mais forte ou um simples defeito em turbinas e, pluft!, o mundo acabou. Ainda bem que tenho meu minhocário e um pedaço de chão para fazer minha horta. Pelo menos, talvez consiga sobreviver por mais alguns dias antes de o fim do mundo chegar. Bom dia.

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