Um outro (e pior) 11/09

PinochetO ódio e o fanatismo dos que, em ataque suicida, derrubaram as Torres Gêmeas em Nova York, na tragédia daquele 11 de setembro, não serão esquecidos jamais. As imagens da tragédia e da barbárie continuam vivas na memória dos que as viram pela tevê, e na carne dos que perderam amigos e parentes. O 11/09, em Manhattan, tornou-se símbolo do radicalismo e, ao mesmo tempo, ponto de partida de uma escalada de horrores que não cessou ainda hoje. O pior, talvez, daquela tragédia não foi ela propriamente dita, mas as conseqüências que propiciou, tornando-se pretexto e causa de outros horrores e com novos atores e autores, dos quais George W.Bush se tornou ou o infeliz maestro ou o títere servil. Ao terrorismo que destruiu as Torres Gêmeas e matou cerca de três mil inocentes, os Estados Unidos responderam com o “terrorismo de Estado”, destruindo o Iraque com denúncias que se provaram mentirosas, matando milhares de inocentes, especialmente idosos, mulheres e crianças. O sangue derramado em Nova York despertou a sede de beber, como vingança, de outros sangues.

Esse, no entanto, foi apenas o 11/09 de uma trágica e dolorosa manhã em Nova York, na loucura suicida de fanáticos e extremistas. Houve um outro 11/09, todavia, muito pior do que aquele, mas esquecido como que propositalmente para, talvez, não revelar mãos ainda mais sujas de sangue inocente e, pior ainda, sujas da morte da esperança de milhões de pessoas. Foi o bárbaro, cruel, programado, estudado, preparado 11/09 de 1973, quando um novo Hitler, saído das entranhas da CIA e comandando tropas do Chile, deu o golpe militar que levou Salvador Allende ao suicídio de honra, matando milhares e milhares de outras, decepando mãos, cortando cabeças, inundando as ruas de Santiago de sangue, transformando um estádio de futebol na mais bárbara prisão ao ar livre, separando mães de seus filhos, irmãos de irmãos, torturando, matando e impondo a lei das selvas.

Foi golpe e matança que, com o apoio dos Estados Unidos, que transformaram, naquelas décadas, a América Latina num laboratório de crueldades e num quintal de experiências econômicas desumanas. Naquele 11/09 de 1973, o golpe de Pinochet – com apoio logístico e da inteligência estadunidenses – matou as esperanças de quem sonhava com um continente mais justo, mais humano e progressista. Precisamos de quase três décadas para, ainda que timidamente, aguardar o retorno de um sonho.

Um pastor maluco – mais um, entre tantos que pregam ódios e obtém vantagens em nome de Cristo e de Deus – quis transformar o 11/09 dos estadunidenses em um outro barril de pólvora, propondo a queima do Alcorão dos islamitas. O mundo ficou em suspense, o próprio presidente Obama pressentindo que a humanidade não mais suportará irresponsabilidades dos Estados Unidos em nome seja já do que for, de direitos humanos, de democracia, de liberdade ou de outras desculpas que apenas ocultam interesses de grupos e grandes negociatas de empresas poderosas. Obama teve a sensibilidade de perceber que mais uma provocação colocaria o mundo em pé de guerra, não mais como ação de governos, mas como rebelião de turbas, de multidões incontroladas pela falta de perspectivas e desalento quanto ao futuro.

Hoje, 11 de setembro de 2010, muito mais honesto e justo, muito mais nobre e digno seria se nos lembrássemos dos assassínios em massa do Chile, da fúria nazista de Pinochet, do apoio da CIA e do Departamento de Estado ao golpe militar chileno bem como aos que aconteceram aqui no Brasil, na Argentina, no Uruguai. O 11/09 de Nova York, se é uma barbárie que espantou e indignou a humanidade, tem que ser visto, na verdade, como uma tragédia mais local, mais específica. No entanto, o 11/09 de 1973, na matança do povo chileno, foi crime de lesa-humanidade que passou em branco por muitos anos, sem grandes protestos, sem grandes indignações, sem manifestações estadunidenses na ONU ou em qualquer fórum internacional. Pablo Neruda, herói de todos os povos, poeta maior das nações latinas, morreu logo em seguida. De dor e de desesperança.

Os que vivemos aquele dia trágico, o 11/09 de Santiago do Chile, sabemos que, para as lutas pela liberdade e em prol de nações mais justas, a sanguinária matança chilena e o martírio de Salvador Allende foram piores, muito piores, do que o 31 de março de 1964, quando um João Goulart acovardado saiu correndo para tomar do avião e refugiar-se no Uruguai. João Goulart era um inocente útil. Salvador Allende, uma esperança viva, um socialista de inspiração humanista, com cultura requintada e espírito de civilidade. Ele foi a última esperança, naqueles tempos, da América Latina. Apoiando Pinochet, os Estados Unidos foram cúmplices no assassínio dessa esperança.

A queda das Torres Gêmeas, por mais trágica tenha sido, não se compara ao martírio coletivo do povo chileno e à desesperança dos latino-americanos. Bom dia.

Deixe um comentário