Um quase linchamento

Orgulho gayEntão, os três rapazes entraram espalhafatosamente no supermercado. Vestiam trajes e tinham trejeitos femininos. Faziam questão de ser notados. E começaram a se beijar, agarrando-se entre si, subindo nos carrinhos e apostando corrida por entre as gôndolas. O que chegava primeiro tinha direito, ao que parecia, a fazer carinhos públicos no outro. As pessoas ficaram imobilizadas, umas olhando para as outras.

Duas senhoras mais idosas, falaram alto: “Isso é uma pouca vergonha. É preciso dar um jeito nessa bandalheira.” Um homem, também idoso, concordou e falou: “Estou me controlando para não dar uns murros neles.” Mas a mulher, apavorada, o advertiu: “Não faça isso, não seja louco. Você pode ser processado por homofobia.” E, de repente, todo o supermercado entrou em agitação, uma indignação coletiva. Percebendo que os moços poderiam ser agredidos, os vigias e fiscais do supermercado cercaram os provocadores e conseguiram levá-los para fora. Evitou-se um quase linchamento.

Na mesma hora, lembrei-me de um jantar que, há poucos anos, tive com alguns atores de teatro, famosos, nem todos eles gays. Eu fora convidado, por um deles, a assistir à peça “A Cabra”, um sucesso extraordinário. Ao término dela, fomos jantar num restaurante acolhedor, um dos preferidos por artistas, intelectuais. Lá estávamos: José Wilker, Marco Caruso, José Renato, Francarlos Reis, eu. Foi quando, escandalosos e esfuziantes, alguns gays adentraram o recinto, com espalhafato e momice. Em nossa mesa, um dos atores falou: “Isso é que confunde a opinião pública. Estes não são homossexuais: são bichas.”

Tenho parentes, amigos homossexuais. E alguns funcionários, jornalistas, tive-os também. E diversos conhecidos. São pessoas decentes, dignas, recatadas, sérias. O meu primeiro livro publicado – o dos 20 anos, “Um eunuco para Ester” – foi, na verdade, uma tentativa de retratar a luta pessoal de um amigo que se tornara homossexual. Acompanhei de perto suas lutas, seus conflitos, o enfrentamento a verdadeiros tabus da época. Lutou por muitos anos, assumiu-se como homossexual já em idade adulta e, por sua discrição e caráter, mereceu o respeito de todos os que o conheceram.

A homossexualidade é questão séria demais para ficar sendo discutido em programas de televisão ou para se tornar espetacularizada, como, estranhamente, o fez a cantora Daniela Mercury. Ao expor sua vida pessoal, sua intimidade, ela abriu espaço para, no âmbito público, tornar-se alvo dos mais desencontrados comentários e opiniões. É esse, talvez, o grande obstáculo – a espetacularização – para incompreensões e preconceitos em relação aos chamados gays. Por que espetacularizar, como aconteceu no supermercado? Como reagiriam populares, se um casal heterossexual ficasse aos beijos e abraços, agarrando-se e tendo intimidades sexuais em público? Esse respeito ao pudor público obriga a todos.

Infelizmente, a falsa moral do “politicamente correto” tem dificultado discussões, reflexões e diálogos em torno de questões importantes das relações humanas. A importância que os meios de comunicação tem dado ao chamado “movimento gay” é, vergonhosamente, uma grande jogada publicitária e comercial. Ora, todos temos o dever, a obrigação até mesmo legal de respeitar e aceitar o diferente. No caso do homossexual, especialmente, por ainda ser complexo demais o entendimento da homossexualidade. No entanto, ninguém é obrigado a aceitar e a admitir o escândalo público, a provocação, o desrespeito de “gays” que interpretam seus shows particulares em público. Isso não é preconceito homofóbico, mas um conceito de respeito público.

Naquele supermercado, vi um quase linchamento de rapazes provocadores, desrespeitadores, movidos por absoluta falta de poder público. Se acontecesse a violência, acho que ninguém iria reclamar, tal a indignação coletiva. Isso significa que – lembrando meus amigos daquele restaurante em São Paulo – está na hora de diferenciarmos o homossexual da “bicha”. Ou democracia se tornou mesmo um vale tudo, saco de gatos e terra de ninguém? Bom dia.

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