Uma cidade bicéfala

Cerberus_zombie_by_CristianPenasDois dos maiores filósofos da humanidade – Aristóteles e Cícero – deixaram-nos um legado de humanismo que alcança todos os tempos. A cidade estava em suas preocupações, o lugar de o homem viver. Para ambos os pensadores, a verdade era clara e simples: “a cidade não é feita de pedras, mas de homens e cidadãos. Logo, governar não é administrar pedras, mas pessoas.”

A história do surgimento das cidades é fascinante. E, se for esquecida, acabará voltando às suas origens. A cidade principiou quando o homem enterrou seu primeiro ente querido. Era a Necrópolis. Aos poucos, o homem – retornando ao lugar para visitar o morto amado – acabou ficando, instalando-se, querendo criar a Utopia, que se tornou cidade. E, como criação humana, um lugar de viver, de coabitação, de criar filhos, de amar, de ter segurança.

Assim, de uma caverna, passou a ser esconderijo. Em seguida, a um montão de pedras, a acampamento, a povoação, santuário, aldeia, oficina, mercado e, enfim, Cidade. Esta não era mais um lugar de passagem, mas lugar de ficar. Por isso, desde a mais remota antiguidade, cidades vivem da tradição (traditio = transmissão, herança), que forma a sua história. Portanto, a cidade é um ser vivo.

Santo Agostinho – que idealizou a Cidade de Deus – compara a cidade a esse ser vivo, com um governo: o cérebro, que é o centro, comunicando-se pela coluna vertebral, e os sentidos: o coração, que distribui o movimento vital para todas as outras partes do corpo. Outros autores e pensadores comparam a cidade à mulher: que quer ser conquistada e conquistar.

Se não tem, pois, cérebro, as cidades ficam sem governo e o coração e todas as outras partes do corpo entram em colapso. Ficam sem alma. E, sem alma, as cidades morrem. Ou desaparecem por falta de identidade. Esse início de fim começa com a desordem, com a confusão, com conflitos internos, com desconfiança entre os moradores daquilo que, antes, foi vivenciado como Utopia. Quando esta é abalada, retorna-se, inevitavelmente, à Necrópolis, lugar de mortos e de mortos-vivos. Piracicaba não escapa a esse processo histórico.

O mais grave, no entanto, é quando o corpo da cidade é bicéfalo, com duas cabeças, não se sabendo qual delas pensa, qual delas governa, qual orienta e qual obedece. Com duas cabeças, a figura do governo é monstruosa, como Ortros, o cão mitológico mais feroz da antiguidade grega. Ele não pensava, apenas queria morder e guardar o seu próprio rebanho. E, para aumentar a sua periculosidade, o cão bicéfalo Ortros tinha um irmão altamente maléfico, Cérbero, o cão de guarda do inferno, o “demônio do poço”, também de muitas cabeças. Só que Cérbero não guardava o inferno para impedir pessoas de entrar. O cão não deixava sair as que lá estavam. Ou, sadicamente, permitia a entrada apenas dos que ele nunca mais deixaria escapassem do inferno.

Cérbero e Ortros, o bicéfalo, tinham uma irmã, a Hidra, também de muitas cabeças. Se se cortava uma delas, logo nasciam duas outras. Hidra era tão venenosa que, apenas com seu hálito, ela matava os homens. Ela representa tudo o que o ser humano tem de ruim, de paixões, de vícios em seu mundo interior. A mensagem mitológica foi entendida pelos estudiosos do comportamento humano: enquanto não se livrar da Hidra, nada de bom acontecerá. E, quanto antes, libertar-se, também, de Cérbero e de Ortros.

Se, pois, a cidade é um lugar de viver, se é um corpo vivo governado por um cérebro que lhe alimenta o coração e os sentidos – essa cidade não poderá, jamais, ser governado por um monstro de duas cabeças. Cidade bicéfala é cidade condenada. Como por maldição, volta a ser Necrópolis. De vivos que não percebem estarem mortos.

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