Uma simples carta íntima

CartaCerta vez, de uma janela escancarada, como que emoldurando a montanha, comecei a ver insignificâncias. Uma delas me entrou pelos olhos, doeu no peito: a insignificância de se criar conceitos, a terrível limitação que nos impõe o verbo conceituar. Então, voltou-me, ainda com mais força, a necessidade de acreditar mais no sentir do que no saber. Para quê saber de poucas coisas se, com o entendimento delas, corre-se o risco de não mais senti-las?

Fujo das montanhas, pois elas me aterram. O mistério e o poder estão no alto. Por isso, prefiro o mar, a praia, o calor do sol, o sal no corpo, o suor na areia. O mistério e o poder do mar estão no fundo dele, deixando que a praia enganosa nos seduza e emocione com maravilhas. Assemelha-se à vida: superfície e exteriores mascarando tristezas e dores que se escondem no fundo. Olhar para o alto ou mergulhar no fundo exigem coragem.

Diante da montanha, como que aterrado, vi um pedaço de papel caindo do alto, fazendo parábolas ao sabor do vento, chegando à janela, caindo-me nas mãos. Era uma carta íntima. E quem a escrevera fora eu mesmo, de mim para mim, o homem que pensava escrevendo ao homem que sentia. Estava escrito:

“Até quando, essa tolice toda? Olhe para trás, veja a já longa caminhada. Apesar de espinhos e de emboscadas, não deu tudo certo? Pare de pensar, veja os filhos que se tornaram adultos, que constroem as próprias vidas, os netos que chegaram, famílias amorosas e amoráveis. Quê de mais triste poderá acontecer, além das mortes e perdas que já ocorreram? Mesmo assim, pondere: se lá se foram pessoas amadas, insubstituíveis, a vida – como para lhe revelar o ritmo perpétuo – lhe deu outras, talvez até mesmo mais belas ou doces. E, com certeza, as pessoas certas e importantes para esse seu momento da vida. Por que, então, o cansaço? Dê-se o direito de deixar de pensar e, então, começar a sentir mais, a sentir-se, nem que seja um pouquinho só. Ora, se – após tão longa caminhada, com dores e amarguras – nada lhe roubou a capacidade de sonhar, por que, então, não ir atrás dos sonhos que sobreviveram, tornando possível o que parecia impossível? Tente transformar-se em seu próprio sonho, tente.”

Estava ainda escrito, no pedaço de papel endereçado de mim para mim:

“Sabe, aqueles valores que ainda o apaixonam? Pois, então: corra atrás deles. Ainda é tempo, ainda dá tempo. Troque as correrias alucinantes e suicidas, deixe de participar dessas tantas tolices, fique em seu canto como fazem os velhos pajés que apenas falam quando procurados. Convença-se: você nada mais pode fazer, sua geração fracassou, sonhando sonhos errados. Pois não há felicidade global, coletiva. Nem mesmo felicidade permanente. Você descobriu como ser feliz por momentos, sabe onde, como, com quem. É seu bem pessoal, por que não aprisioná-lo como tesouro de toda uma vida?”.

E a carta do outro eu prosseguiu:

“Aí está você amadurecido, a velhice chegando e encontrando-o livre, liberto, sabendo de algumas coisas que a vida lhe ensinou a tão duras penas. Por que, então, não sentir, apenas sentir, como água do riacho que vai em frente com a certeza de que algo mais belo virá pela frente? Olhe, perceba: o fruto amadureceu. Você é fruto maduro, pronto para ser devorado, para ser saboreado. Não é o que dizemos diante de uma criança bela e risonha, que queremos comê-la? Não é o que dizem, os amantes, um para o outro: que se querem devorar? Pois, entenda de vez: ninguém come o fruto verde. Come-se o fruto amadurecido. Deixe-se, pois, devorar pelos que o amam, deixe-se sugar por eles todos, seja o fruto disponível, inteligentemente disponível. Pois se, maduro, o fruto não for comido, não se esqueça: ele apodrece, morre, seca, murcha. Aprenda, coma-se a si mesmo, sinta e sinta-se. Ou você se esqueceu realmente de Fernando Pessoa? Então, recorde: pensar é estar doente dos olhos.”

Lembro-me de ter fechado a janela e de que, então, a montanha aterradora desapareceu. A carta, também. Assim, continuei doente dos olhos. Mas “contemplo o que não vejo.”

*Publicada originalmente no Correio Popular em 19/3/2004

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