Único rei

picture (50)Até entendo os que relêem seus escritos publicados. De minha parte, não o faço. Falta-me coragem. E seria um sofrimento duplo. Pois quase tudo seria diferente, sempre diferente. Mudar-se-ia a forma, alterar-se-ia o conteúdo, certezas antigas não passariam de tolices e equívocos. E muito, muito não seria escrito. Ou alinhavado de outra maneira, com outra forma de pensar. Para não sofrer outra vez, não releio.

Na verdade, há coisas que jamais deveriam ser escritas. Especialmente, cartas de amor, como já ensinara Rilke ao jovem poeta. Não se deve escrevê-las, não se deve revê-las. Mas, se o amor, ao longo da vida, sobreviveu, será emocionante rever uma história também vivida em letra de forma. Um casal amigo viveu essa experiência. Ainda jovens e namorando, combinaram reler suas cartas quando completassem bodas de prata de casamento. O tempo passou, o dia chegou. E lá se foram eles para outra lua-de-mel. Nas malas, pacotes de suas cartas de amor. Imagino o que aconteceu, cartas relidas a dois.

Cartas de amor, escrevi-as. Mas não suportaria relê-las, diante de vazios que sobraram, de sonhos desfeitos, de amores findos. Rilke tinha razão: não se deve escrevê-las. Uma, no entanto, apenas uma eu gostaria de reler, uma esperança viva de que a cartinha tivesse sobrevivido ao tempo, à vida, à caminhada. Foi a primeira das que escrevi, uma explosão de sentimentos transformada em versos, meus poucos versos. Numa folha de caderno, com caneta de molhar em tinteiro, letra trêmula e miúda, rabisquei coisas de um imenso amor. Enviei-a para Shirley. Tínhamos dez anos. O carteiro deixou-a numa casinha de colônia de trabalhadores, na Usina Ester, em Cosmópolis. Estou certo de ter rimado “querida” com “minha vida”. E “coração” com “paixão”.

Vi, pela televisão, o Ronaldo Gorducho estreando no Corinthians, retornando a um time do Brasil, ainda cercado de escândalos. Tive pena. Foi patético ver o moço, que foi o maior jogador do mundo, desfilando um corpanzil disforme, arrastando-se. Foi, então, que refleti a respeito de coisas escritas e nunca relidas, pois, por causa do Ronaldo, pensei em Pelé e tive constrangimentos. Acho que vergonha. Não me esqueço de quanto o detestei, do tanto que Pelé me fez sofrer, os maus agouros que roguei para ele sumir de minha vida, passar longe do Corinthians, ter luxações, bicho de pé, frieiras. Houve dias – em tristes 12 anos de sofrimento – em que desejei Pelé morresse. Senão, seria eu a morrer de tanta dor. Nenhum dos dois morreu. Mas a mágoa ficou.

Lembrei-me de minha redenção quando assisti ao filme “Pelé eterno”. A minha era má vontade total, mas me armei de coragem e vi o filme. Não resisti cinco minutos. Já no primeiro toque de bola, o encantamento apareceu. Revendo o gol contra o País de Gales – naquela tarde gloriosa de 1958 – comecei a entrar em estado de graça. Parecia impossível ser verdade. E o orgulho de brasileiro inflou. E me envergonhei das pragas tantas que lancei contra Pelé. Pequei contra os céus. Blasfemei contra um deus humano, um deus negro, o Zeus do futebol, artista total, bailarino, saltimbanco, equilibrista, arco e flecha, asas de gaivota, olhos de lince, músculos de pantera, instinto de animal – todo o Olimpo num só deus.

Na África, tribos interromperam uma guerra para ver Pelé jogar. Reis, rainhas, presidentes, o mundo se rendeu à perfeição de sua arte. Como pude esquecer-me? Como pode, o Brasil, não render-lhe honras todos os dias? Vi Pelé, não o filme. E boquiabri de novo. De espanto, de fascinação, de maravilhamento, de pasmo. E arregalei e esfreguei os olhos e prendi a respiração e caí das nuvens. Um ser apenas humano não faz o que Pelé fez. Que os céus me absolvam das blasfêmias. Pelé é mesmo eterno. Ronaldo, mesmo que ele venha a fazer algo novamente, é um ser patético, que não mereceu a majestade que teve e nem merece a histeria que desperta num povo sem referenciais. Bom dia.

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