Vai trabalhar, vagabundo

picture (20)Para uns, o trabalho dignifica o homem. Para outros, não passa de castigo, de penitência. O fato é que, tendo de se sustentar e de manter-se, o homem não escapa ao trabalho, sendo feliz se conseguir fazer, de sua atividade, algo também prazeroso.E assim caminha a humanidade, entre prazeres e amarguras, entre privilégios e injustiças. De minha parte, quando, ainda menino, decidi ser escritor, ouvi, de meu pai, a expressão horrorizada: “Escritor? Para morrer de fome?” Até a psiquiatra me levaram, num tempo em que essa era especialidade médica que atendia a loucos. De qualquer maneira, teimei. E bem ou mal sobrevivi, acho que mais alegremente do que imaginei. O certo é que de fome não morri.

No entanto, descobri atividades que me causavam inveja, inveja danada por eu não estar entre os beneficiados. Na verdade, quando jovem, eu me encantei com escritores brasileiros que eram diplomatas. Nunca ninguém soube do que fizeram na diplomacia, mas soubemos de suas obras, de seus escritos. Até Neruda foi diplomata. E teve tempo e luxos para escrever com sossego e tranqüilidade. Senti inveja, até tentei inscrever-me no Instituto Rio Branco, aprendi línguas, mas fui atropelado pela carreira jornalística que me aprisionou.

Assim, quando imaginei que ser diplomata era como um passaporte para a literatura, eis que descobri, em plena ditadura militar brasileira, a mais deliciosa das funções, a mais formidável, a sinecura mais espetacular: o senador biônico. Nunca se soube de privilégio igual, a não ser o cavalo de Calígula, o Incitatus, que se tornou senador romano. Senador biônico foi o que encontrei de mais admirável para se desenvolver a arte de fazer nada, com mil mordomias. Morri de inveja, pois via os gabinetes deles em Brasília, os privilégios, o mulherio pendurado nos braços de velhos caquéticos, motoristas, salários altíssimos para nada fazer. Se eu fosse senador biônico, pensei com inveja, teria tempo de sobra para escrever, desde que não cedesse às tentações de tantos prazeres gratuitos.

O fato é que nunca consegui entender místicos e religiosos que dizem ser, o trabalho, um bem, uma dádiva para o homem. Parece-se isso não ser verdade, nem mesmo bíblica. Pois lá estavam Eva e Adão no Éden de todas as delícias, no dolce far niente eterno, peladinhos da Silva, preguiçosos, bocejantes, quando a serpente apareceu para atrapalhar. Burra, Eva cedeu; mais burro ainda, Adão acompanhou. E Deus, contrariado, não teve dúvidas: “A partir de agora, vocês irão ganhar o pão com o suor de seus rostos.” A Bíblia não conta mas até um escritorzinho medíocre pode imaginar a cólera de Deus diante da ingratidão de seus filhos, dizendo o que qualquer pai diria a filhos desobedientes: “Vão trabalhar, vagabundos.” Até hoje, Eva e Adão trabalham.

Só quem não trabalha são os excelentíssimos senhores deputados federais e senadores, com extensão para assembléias e câmaras municipais. Se trabalham, é de araque. Neste Dia do Trabalho, o brasileiro trabalhador deveria imitar Deus e berrar, com pulmões abertos, para cada folgado de Brasília: “Vai trabalhar, vagabundo.” Aliás, acho que deveria ser uma nova motivação para os caras-pintadas inundarem as ruas do país, de dedo em riste para cada político que encontrar: “Vai trabalhar, vagabundo.” Eis aí, acho eu, uma boa idéia. Bom dia.

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