Vale tudo. Menos casar.

picture (9)Significando “lugar nenhum”, algo irreal, a Utopia de Morus tinha alicerces no imaginário. Uma das cidades, a capital, era Amaurota, significando “cidade inexistente”. E tinha um rei, Ademos, cujo nome exprime a idéia de um soberano sem povo. Eu também tenho o sonho de construir a minha Utopia cuja capital seria uma caverna.

Esse meu reino teria muitas liberdades. Aos não-casados, seria assegurada a festa geral, tal como agora quanto a relações pessoais, íntimas, afetivas. Adultos que se estropiassem: homem com mulher, mulher com mulher, homem com homem. Não haveria qualquer restrição de ordem moral ou legal a uniões hetero ou homossexuais. Poderiam trocar de parceiros quando bem entendessem, sendo aceitos como namorados, amantes, amigados, juntados, amigos coloridos, ficantes, mutantes, tentantes, desconhecidos íntimos. Mas não seriam casados. Pois estes teriam uma legislação própria e precisariam de autorização para celebrar o casamento.

Há uma velha e cruel sabedoria fundante: “Montou no burro? Então, agüente o trote.” Surgindo os filhos, há que se agüentar o trote. Por isso, a falácia de felicidade pessoal, de realização individual, de crescimento a dois seria apenas conversa mole. Não há direito algum à felicidade pessoal se for às custas do sofrimento alheio, especialmente de crianças e de adolescentes. Nem antes, nem agora.

Nessa Utopia, apenas haveria casamento quando homem e mulher quisessem constituir família, procriar, escolhendo os filhos como opção primeira. Seria, então, uma escola de formação de seres humanos. E apenas isso. Um lugar e um tempo, portanto, de doação permeada de alegrias e sofrimentos. Casar-se é sofrer. E, quando se tem consciência de ser sofrimento a dois, a dor pode se fazer alegria.

Ter filhos, portanto, não seria para qualquer um. Fazer filhos é fácil. E até prazeroso. O problema é formá-los. Por isso, na minha Utopia, quem quisesse filhos seria autorizado a se casar mas com uma condição essencial: o casal não poderia se separar antes de os filhos atingirem a maioridade. Se a relação entre marido e mulher estiver boa ou não, se forem felizes ou não, se quiserem um matar o outro ou se odiarem, isso não importa, pois é problema secundário. Viver em harmonia é um exercício, uma luta, um aprendizado. Na minha Utopia, filhos terão pai e mãe até estarem prontos para caminhar sozinhos na vida. Serão pais e mães em tempo integral, não apenas pais de fins de semana. A tal “realização profissional e pessoal” não poderia implicar sofrimento e carência aos filhos, como atualmente: consultórios terapêuticos fervilhando de pessoas amarguradas e enlouquecidas por desvarios emocionais; escolas não sabendo o que fazer com crianças amarguradas, problemáticas, carentes, amadas segundo as leis do mercado.

Colocar filhos no topo principal das prioridades? Sim. E o resto? Ora, é isso: o resto é o resto. Ninguém é obrigado a ter filhos. Quem os tiver, saberá, pelo menos na minha Utopia, que eles são o centro e o objetivo da vida, não um brinquedo que se desejou ter e, depois, não sabe o que fazer dele. Depois de os filhos amadurecidos para a vida, que homem e mulher façam o que bem entenderem de si próprios. Que até se matem, se for o caso. Mas que não matem almas inocentes em favor de seu egoísmo ou irresponsabilidade. Já vivi essa experiência na carne. E não a desejo para ninguém. Bom dia.(Ilustração: Araken Martins.)

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