Valor de bordel australiano

picture (75)Nos tempos de Bóris Karloff, quando o monstro do dr.Frankenstein aparecia na tela, ou se fechavam os olhos ou se morria de medo. Geralmente, morria-se de medo. Pois, mesmo fechando-se os olhos, Frankenstein e Bóris Karloff continuavam existindo. Nas sombras dos quartos, eles aterrorizavam, amedrontavam. Fingir, fechar os olhos, de pouco adiantava.

Pode ser outra de minhas tolices, mas aumenta-me a impressão de vivermos uma formidável farsa consensual. Vamos, ao mesmo tempo, fazendo-de-conta e fechando os olhos. Faz-se de conta que está tudo bem, fecham-se os olhos para o real. Faz-se de conta que não há problemas, fecham-se os olhos para não vê-los. Faz-se de conta planejar para o futuro, fecham-se os olhos para não ver o agora. De tanto fechar os olhos, pode ocorrer que não consigamos enxergar mesmo com eles abertos. Fazer de conta vicia. Olha-se sem ver, vê-se sem enxergar.

Aprendi, porém, a ponderar melhor as coisas e admiti outra hipótese: a de que, em Piracicaba, as autoridades não saem de suas casas. Não andam de carro, não vão às compras, não passeiam. Ora, olhar e não ver, ver e não enxergar configuram uma situação. Ignorar por não ter visto, outra. Há autoridades que, herdeiros de Tomé, apenas acreditam no que vêem. Se não saem de casa, não vêem. Deve ser isso: não saem de casa. Pois não estão vendo nada. Se andassem por aí, veriam e, então, deixar de agir seria omissão. Convém não ver. Mas, apesar de olhos fechados, Frankenstein existe.

Com dúvidas cruéis, admiti outra hipótese: e se o Código Penal tivesse mudado? Apressei-me a consultar um de meus muitos amigos advogados. E, então, doutor: exploração de lenocínio ainda é crime? E prostituição? E atentado público ao pudor? E vadiagem? O doutor garantiu-me, nessas questões, o Código continuar o mesmo. Não se pode, pois, alegar tudo seja apenas problema social. Ainda há, casos de polícia: malandros, falsos pedintes, prostitutas, cafetões, gigolôs. Em nome do “trottoir”, alegam o direito de “ir e vir”. Há delegado que aceita. Ou finge aceitar. Enquanto isso, as famílias se aprisionam.

Continuo confuso. E se, nesses tempos finais de mercados, esteja havendo um grande plano para estimular, ao longo do rio, o turismo sexual? E se o projeto fosse a criação de uma “cidade bordel”? Pois está na moda. Há algum tempo, na Bolsa de Valores de Melbourne( Austrália) a grande sensação foi o bordel “The Daily Planet” que, lançando ações, conseguiu, num só dia, 600 novos sócios, movimentando U$ 2,2 milhões de dólares. Se um só prostíbulo rende tanto, há que se imaginar o sucesso de uma “cidade-bordel”.

Nem dessa falida economia globalizada, caipira entende. Não sabendo avaliar custos e benefícios, reclama de uma cidade já subjugada por prostitutas, travestis e malandros. Ou se trata do turismo sexual funcionando a todo o vapor, ou a realidade é mais dura: omissão de autoridades. Fecham-se olhos para não ver. Tolera-se. E, de tanto tolerar-se, vamos passando de “casas de tolerância” para uma “cidade de tolerância” Talvez, sem que muitos saibam, esteja construindo-se – toda garrida e alegre – uma “cidade-bordel” para entrar no mercado. Sem ser australiana, é óbvio.

A esperança está em que malandros façam “trottoir” em ruas onde morem as principais autoridades municipais com suas excelentíssimas famílias. Daí, abrem-se os olhos. Quando ameaçadas, as elites fazem a lei funcionar. Bom dia.

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