Velhote fashion

picture (1)Agora, além de desfiles, “SP fashion week”, tem até um canal de tevê “fashion”. Começo a aprender coisas esquisitas: tudo o que está na moda “é fashion”. Até pessoas podem ser “fashions”. Gestos e atitudes, também. Por exemplo: é “fashion” casamento “gay”. O de antes está fora de moda.

“Ser fashion” é interessante. E pode acontecer de repente. Quando imaginei sentir-me um “velhinho fashion”? Está ocorrendo, levando-me a jardins de delícias e, às vezes, até com sabor de vingança. Começou com uma calça de brim, velha companheira. Dizem ser “jeans”, mas, quando a comprei, o nome era calça rancheira. Só eu sei o quanto mulher e filhos me xingaram por causa da calça: “Jogue fora essa porcaria; é vergonhoso vestir esse trapo!”, diziam-me. E meu coração ficava conforme o Chico cantou: um copo até aqui de mágoa.

A tal calça rancheira, eu a usava apenas em casa, pois ela estava cansada, com uns 35 anos de idade. Não, não, exagerei: minha calça tinha uns 30 anos e eu a comprara numa barraca em Fortaleza. Era marrom. Envelhecendo, tornou-se quase amarelinha, mas mais leve, suave, generosa. Como ocorre com as pessoas, o tempo deixou-lhe, também, marcas, uns rasgos no bolso de trás. Quando pedi a remendassem, vaiaram-me: “Isso não vale dois reais, jogue fora.” Eis a maldição de nossa era: o mundo se transformou em lugar onde preços estão acima de valores. Há coisas com valor e sem preço algum. E outras, com preços altíssimos, sem qualquer valor.

Foi o caso de minha calça rancheira que se tornou “jeans”: não tinha preço algum, mas valor inestimável. Era minha, toda minha, velha companheira e, quando a via no armário – rota e desbotada, mas limpinha e fiel – comovia-me por sua fidelidade. Pois parei de fumar, envelheci, engordei e a calça, eu a vestia como se feita naquele da e sob medida.

Pois bem. Jogaram minha calça fora, quase chorei. E fico indignado, a partir dessa questão “fashion”, ao descobrir que, muito antes, eu era homem integradíssimo à moda, atual, moderninho. Pois, agora, por onde passo, vejo calças parecidas com a minha que jogaram fora, o tal do “miserê chique”: rasgadas, com buracos nos joelhos, nas coxas, alguns no bumbum, desbotadas, esgarçadas. Fico triste, mas encantado. E mais ainda fiquei quando um dos filhos – para me ressarcir do estrago, de minha calça jogada fora – me levou a uma loja italiana que ele disse famosa, uma tal de Zara, Lara, Vara, sei lá o raio do nome. Ele ia presentear-me – em chantagem indireta – com uma calça “jeans”, acho que para substituir a minha tão amada rancheira.

Não vou mentir: babei diante das calças que vi, dessas rancheiras modernas. Uma delas, com aquela cor antiga – de burro quando foge – me embeveceu. Apontei-a com o dedo, perguntei a meu filho: “Pode ser aquela?” Ele disse preferir outra cor, mais próxima do roxo, de um tom abóbora com presunto, mas vá lá, concordou.

Fui provar. Ou é experimentar, que se diz? Então, urrei. De alegria e prazer. Pois eu me vi menos velhinho e mais “fashion”: a nova calça não tinha zíper na braguilha! E, em meu armário, tenho umas três – do antigo tecido inglês! – que deixei de usar pois diziam ser traje de caipira: em vez de zíper, elas têm botões na braguilha. Pois, à época, éramos mais cautelosos: zíperes, naquele espaço geográfico do corpo, são perigosos e pouco confiáveis. Perigosos porque, por um descuido ou pressa – zás, vupt, uau! – eles enroscam em lugar inadequado e machucam. E pouco confiáveis por arrebentarem em horas as mais inoportunas. Já me aconteceu, num jantarzinho romântico, de ir ao sanitário, não perceber ter-se-me estourado o zíper, retornando à mesa com a braguilha aberta. Assustada, a mulher escafedeu-se.

Mas – “voilá!” – estão de volta os tempos felizes: calças rancheiras rotas com botões na braguilha. Ser “velhinho fashion” é ótimo. Bom dia.

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