Ventos vergando caniços

picture (13)Criança e adolescentes, não consigo deixar de atendê-los. E não por generosidade ou por compreensão. Mas por gratidão e por dívida. Quem recebe precisa devolver. Recebi muito.

Essa dívida para com o outro começou a acontecer-me em meus tempos de estudante. Dependíamos de caronas. O ônibus parava à entrada de Campinas ao amanhecer de cada dia. Ficávamos à espera de ajuda. E sempre houve quem no-la desse. De uma certa forma, a Anhangüera foi a nossa Route 66, on the road, nosso pé na estrada. Ir e voltar, ficar à espera, a beira da estrada, uma indigência feliz.

Certa vez, ao sol do meio dia, lá estava, eu, parado à beira da estrada, suores do calor, o corpo mal alimentado, a inquietação e a fome, precisando retornar a tempo à redação, inícios de jornalismo. Então, um belíssimo automóvel parou a alguns metros de mim. E um homem maduro, de cabelos brancos, sorridente, confiável, abriu a porta do carro. E deu-me carona até as proximidades de Tupi, por onde ia e voltava o ônibus da AVA. E ele me explicou estar, apenas, cumprindo promessa de sua juventude. Médico, conseguira formar-se graças às caronas que recebera, ao longo da vida de estudante. E prometeu-se jamais negar carona a nenhum jovem. Impediu-me de agradecer-lhe a generosidade: “ Depois que você se formar, faça o mesmo.”

Carrego, comigo, tristeza dos tempos enlouquecidos. Pois, por quase toda a minha vida, cumpri a promessa e dei caronas à beira de estradas, em ruas distantes, a pessoas humildes, a jovens aturdidos. A pouco e pouco, porém, o perigo e o receio venceram a solidariedade e a promessa que também me fiz. Dar caronas se tornou quase que um suicídio ou irresponsabilidade. A feiúra venceu. A solidariedade perdeu. Por enquanto.

Não dou, pois, mais caronas, derrotado pelo violência que me impede pagar dívidas de solidariedade. No entanto, tornei-me prisioneiro de um outro dever: atender jovens e crianças.

Crianças e adolescentes, em um colégio de Campinas, me honram estudando, discutindo e trocando idéias em torno de crônicas que escrevo para o Correio Popular, naquela cidade. Ora, para um escritor — e, em especial, para um escrevente de croniquetas — não há prêmio mais plenificante do que ter leitores infantis. Mais do que “ser lido” por crianças, é envaidecedor “ser entendido” por elas.

Pois bem. Aceitei o convite para, num dia da semana, estar com a garotada em suas salas de aula. Mas inquietei-me: “Como conversar com crianças?” Então, lembrei-me do dia em que uma das filhas apareceu, de repente, em casa com meus netos, pequeninos, deixando-os comigo. Estando sozinho, agitei-me: cuidar dos pequenos, fazer o quê, como? Minha filha até se irritou: “Fazer o quê? Faça, com seus netos, o que você fez conosco, os filhos: conte histórias.” Senti-me gratificado.

Pensei nisso antes de conversar com a criançada do colégio campineiro. Eles perguntavam: “De onde vem a inspiração para escrever?” Ora, como lhes explicar o mistério da inspiração humana? Pensei em passarinho, em borboleta: de onde vem a inspiração para vôos e cirandas por aí? Seria uma explicação: um vôo de borboleta, um arpejo de passarinho. Ou apanhar um canudo de mamoeiro e fazer bolinhas de sabão. Inspiração deve ser isso.

Crianças e jovens são caniços que vergam ao sabor dos ventos. Não podemos deixá-los expostos a temporais. Meu compromisso, com eles, é o de ser brisa delicada, suave, terna. Mas firme e segura na sugestão de caminhos. Há que se atendê-los, nem que seja para apenas falar de bolinhas de sabão, de caniços e de brisas. Bom dia.

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