Ver com os olhos, lamber com a testa

Ainda hoje, não entendo o porquê de meu pai, líder maçônico, ter-nos colocado, os filhos todos, em escolas de freiras e de padres. Éramos seis, como dizia aquele livro, o da Senhora Leandro Dupré, cujo primeiro nome era Maria José e ninguém sabia. .

Foi bom, não reclamo. Mas não entendo. Mesmo porque minha mãe era mais festeira do que religiosa. Acho que, na cidade, ela foi a primeira “mulher branca” a sambar no “cordão dos pretos” em carnaval de rua, muito antes de a Beki Klabin lançar a moda nas avenidas cariocas. Ela grudava em meu pai, sambava uns cinqüenta metros, voltava para casa, trocava de roupa e, toda vaporosa, ia ao baile no clube. Séria e elegante, no camarote, ficava abanando-se com leque perfumado, acho que “leque da Ilha Madeira” como se dizia do abano.

Pois bem. O bom da escola religiosa, acho, era o fato de quase tudo o que aprendíamos ter versão diferente na casa de meus pais. Posso, hoje, avaliar ainda melhormente. Mas havia algo estranho: o sobrenome de minha mãe era Abrahão; Elias, o de meu pai. Minha casa era uma fraternidade oriental, na certeza de que árabes e judeus são aparentados. Meu pai dizia ser primo de Jesus, parentesco vindo desde o profeta Elias. E minha mãe garantia ter sangue de José, pai de Jesus, por parte de Davi e de Abrahão. No meio dessa babilônia toda, meu pai falava de régua e compasso maçônicos, que dizia tratar-se de herança egípcia, dos tempos dos faraós. Assim, pois, era o lar.

Desde pequenino, ouvi padres falando de pecado. Eu não entendia: bastava fosse gostoso e bom para ser pecado. Gula era pecado e eu não resistia a jabuticaba no pé ou a manga no quintal do vizinho. E luxúria? Eu não sabia do que se tratava mas sentia. Quanto mais os padres entravam em pormenores, menos eu entendia: isso é pecado, aquilo também é; se for feito assim, é venial; se for assado, pecado mortal.

Um dia, quis entender melhor o assunto. Mas o professor cortou-me o barato garantindo que as pessoas pecam todos os dias, diversas vezes por dia: “Se dermos consentimento, pecamos por pensamentos, palavras e obras, não tem jeito.” Ora, se não tem remédio, remediado está. Gostei da lição e, como tínhamos que confessar toda semana, eu me ajoelhava e ia direto ao assunto, objetivamente: “Pequei tudo, todos os dias, por pensamentos, palavras e obras.”

Sei lá se o padre era burro, se não acreditava ou se curioso demais. Pois não se contentava com minha confissão geral, ampla e irrestrita e queria saber com detalhes: quais pensamentos, quem estava neles; que obras, com quem; que palavras, para quem. Portanto, no pecado, sempre havia um outro. Logo, Sartre tinha razão: “o inferno são os outros.”

Penso, ainda agora, nessas coisas, por causa da Beyoncé, essa que é, como dizemos, “um puta dium cavalão de muié.” Ela me incomoda e me leva a altas reflexões filosóficas. Os apetites, a gula, por exemplo. Ora, duas fomes marcam a vida das pessoas, admitamo-lo ou não: a do estômago e a do sexo. Basta ver que as duas grandes questões já preocupam até economistas e ambientalistas: obesidade e nudez. Pois as pessoas estão ficando cada vez mais obesas e cada vez mais despidas. Comem para saciar a gula, despem-se para despertar outras gulas.

Ando nervoso com essa injustiça: a fome de guloseimas é aceitável; fome por pessoas, não. De minha parte, ando numa sensaboria de dar dó: pouco açúcar, pouco sal, nada de gorduras. Outro dia, passeando num shopping, parei, embasbacado, diante da vitrina de uma confeitaria. Eram fios de ovos, cremes, cocadas, cerejas. Lambi os beiços, água na boca. Minha mulher cutucou-me: “Gostoso, né? Mas só pode ver.” Ou seja: por palavras e pensamentos eu podia comer; mas comer, de verdade, não. Lembrei-me dos padres.

Noite dessas, numa reportagem de televisão, surgiu a Beyoncé, deslumbrante e bela, tentadora e irresistível. Sei lá se me mexi na poltrona, se suspirei, o fato é que minha mulher pigarreou: “O que você tem?” Associando, talvez, Beyoincé à confeitaria do shopping, balbuciei: “Ela é um doce, não?” E minha mulher: “Tem mais gordura do que açúcar e você está proibido dos dois. Pare de pensar em besteira, veja com os olhos e lamba com a testa.” Mas quem falou ser besteira o que pensei? Bom dia.

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