Viável, inviável?

InviávelDe quando em quando, tenho lá minhas dúvidas a respeito da viabilidade do ser humano. Minto: tenho-as quase sempre. Fica-me, então, aquela angústia no peito, como que uma tormenta. Ou tormento. E a pergunta: “viável, inviável?” Daí, a aflição diminui quando a dúvida obriga a evitar extremismos, a simples alteridade, isso ou aquilo, dia ou noite, bom ou mau. Ouço alguma voz relativista ou sábia, sugerindo o exemplo habitual: “Não existe apenas o preto ou o branco. Há o cinza.” E tudo me fica no “chiaroscuro”, aquela indefinição crepuscular ou do amanhecer quando as cores se misturam. E a dúvida permanece: “viável, inviável?”

Quando quero aceitar a inviabilidade dos humanos, o coração se me enternece à lembrança de compositores que bordejam o divino, de pintores que captam a imaginação de Deus, da generosidade de pessoas, de santidade delas, de milhares de homens e de mulheres que, no anonimato, fazem o bem, divulgam o belo, doam-se com generosidade. Mas, quando começo a ficar condescendente e a me animar com a beleza do bicho homem, o reverso da medalha aparece e estraga tudo: criancinhas mortas, estupradas, torturas, morticínios, escravizações, traições, armadilhas, deslealdades. É como se para cada Monet surgissem milhões de pichadores; como se, para cada Bach ou Mozart, aparecem milhões de tocadores de buzinas, de vuvuzelas; como se para cada Francisco de Assis ou Tereza de Calcutá existissem milhões de demônios e de bruxas.

Já me acontece o mesmo com a democracia, essa que aí dizem estar, a do Brasil. É algo que existe ou arremedo? Tem consistência ou é apenas verniz? Serve a todos ou engana muitos para favorecer a poucos? Essa brecha estúpida e perversa na Lei do Silêncio – que irá escancarar tudo para os seqüestradores da paz e os que ridicularizam a convivência respeitosa – aumenta minhas cada vez mais sérias dúvidas a respeito da importância ou desimportância da democracia à brasileira. Vale a pena viver uma farsa ou seria melhor ter que começar tudo de novo, do zero, enfrentando ditadores declarados e institucionalizados, não os que o são a partir do voto falsamente legitimado? A democracia é ou não é. Fingindo ser, torna-se um perigo ainda mais pernicioso, pois é máscara ocultando interesses escusos, dando legitimidade ao ilegítimo.

Convenço-me do acerto de minha decisão de afastar-me do cotidiano de uma cidade que vai sendo dominada por uma mediocridade agora institucional. Era o que nos faltava: o império dos medíocres e dos interesseiros, favorecidos por uma falsa concepção de democracia. Mesmo o voto não tem mais qualquer importância, se este pode ser manipulado aos milhares, seja pela televisão, por falsos pastores, por demagogos, por inescrupulosos. Chegamos ao ponto de que nem mesmo as exceções têm mais importância, pois elas são impotentes.

Estou apostando em que irá aumentar o já crescente conceito do “salve-se quem puder”. Quando não se pode mais acreditar e confiar sequer em seus representantes, o povo passa a agir por conta própria. Afinal de contas, está mais fácil acreditar em boi voando do que em senso público de homens públicos. São tempos de insegurança, de um povo indefeso que não pode mais esperar nem em “reclamar para o bispo”. Bom dia.

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