Vila Rezende, nicho da alma

Quando as coisas estão muito próximas dos olhos, muitas vezes mal as enxergamos. É, então, preciso recuar para ver e melhor enxergar. Assemelha-se à admiração de uma obra de arte, de uma pintura. Muito próximo dela, vê-se apenas a árvore da floresta, vêem-se detalhes. Distanciando-se, vê-se a floresta e que ela tem árvores. É o olhar de conjunto.

O escrevinhador vive dessas suas confusões. E contradições. Também de injustiças, muitas vezes involuntárias. Faço o “mea culpa”. Pois tenho, insistentemente – para não dizer desesperadamente – lamentado a perda da alma piracicabana, a corrosão de valores, a desmemória. Isso não é inteiramente verdadeiro. A alma piracicabana está, apenas, sendo preservada e guardada no lugar onde ela nasceu, onde foi colocada pelos pioneiros, à margem direita do rio. Lá, onde tudo nasceu: Vila Rezende.

O umbigo de Piracicaba foi enterrado lá e lá continua. É uma história apaixonante, feita de audácia, de dores, de enfrentamentos, de injustiças, de conquistas, de diversidade e de adversidades. Espaço de barões e baronesas, mas, também e especialmente, de colonos e de operários, de empresários e de intelectuais. Certo dia, perto de Santa Terezinha, me perdi pelo caminho e perguntei, a um jovem, como fazia para retornar. Com o dedo, ele apontou a direção: “Piracicaba fica daquele lado.” Antes de ser piracicabano, ele era um rezendino.

Mas, na realidade, o verdadeiro piracicabano sempre foi o rezendino. Qual habitante de outro bairro ou distrito tem nome próprio designativo de sua origem?Existe um bairroaltense (Bairro Alto) , um paulistense (Paulista), um santaterezinhense (Santa Terezinha), um tupiense (Tupi)? Mas existe o rezendino, o piracicabano de Vila Rezende. É nosso berço.

O Mirante, o Engenho, as grandes indústrias, as margens mais belas do rio, o lado para onde mais despenca o Salto, tradições, linguagem, culinária, o início da história está em Vila Rezende, o nicho da alma piracicabana. Os nomes das ruas – Dona Eugênia, Dona Lydia, Manoel Conceição, tantas outras – contam uma história de riqueza cultural incomum. O antigo e o novo verdadeiro – esse que se renova sem perder a raiz – lá convivem em harmonia.

Sinto-me envergonhado, especialmente porque, em dias de tristeza infinita diante da devastação cultural, é lá pelas ruas de Vila Rezende que vou rodar, vendo pessoas, casas, grupos sociais que parecem vitrinas preservando um mostruário histórico ainda intocado. E quase não me perdôo, pois guardo, dentro de mim, algo muito próximo à paixão, mas que é como um culto por Lydia de Rezende. Quando mergulhei na história de sua vida, apaixonei-me por essa mulher que, segundo o escritor Coelho Neto, era “o símbolo da mulher brasileira”. Virtuosa, religiosa, culta, brilhante, ativa, moderna, atuante, presente, Lydia de Rezende foi a construtora do atual Instituto Baronesa de Rezende, que ela havia criado como sanatório para tuberculosos, o primeiro do Brasil. Lydia ia passear com o pai, o Barão de Rezende, no Parque do Mirante, que pertencia à sua família, parte do jardim do solar dos barões. No parque, eles pensavam a cidade.

Piracicaba dos barões empreendedores, do pioneirismo republicano, das lutas pela liberdade, cidade escravagista que se tornou abolicionista – esse tesouro está guardado em Vila Rezende, nicho da alma piracicabana. Como pude me angustiar, com o medo da morte da verdadeira Piracicaba, se Vila Rezende está nos agasalhando, lá à margem direita do rio? Mea culpa. E bom dia.

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