Vinho raro recusado

Diz-se haver, atualmente, uma “poluição informativa”. Pode ser. Mas depende do que se entenda por informação. Pois misturaram-se conceitos, definições, significados. E de tal forma que, atualmente, informação, comunicação, entretenimento, cultura, conhecimento, tudo foi jogado no mesmo balaio de descartáveis.

Penso nisso a partir de indícios que nos chegam também da “douce France”, sempre ela.. A explosão dos miseráveis é contagiosa. Quem assistiu à revolução jovem de 1968, sente o mesmo cheiro de pólvora no ar. Um cheiro universal. Pois a humanidade tem algo próximo a uma forma coletiva de telepatia: o que se sente na França, sente-se também em Piracicaba. Não se sabe, não se consegue explicar. Mas sente-se.

Há sinais: desumanização, falsos desenvolvimentos, carrapatos, gripe de aves, sinais de pandemias que se misturam a tufões, terremotos. São partículas de um mesmo todo, junto a um outro que me espanta: a infâmia de, no mundo da mais espetacular tecnologia, ver gente fazendo funções de mulas, cavalos, bois. Cansei-me de escrever sobre essa desumanização do humano. Homens e mulheres tornados animais de tração, carregando carrocinhas com jornais velhos, latas, caixas de papelão.

Continuo a vê-los tão logo deixo o meu canto de ficar. E, então, a meus olhos, o retrato da maldição original: de um lado do portão, jardins serenos; do outro, campos de guerra. Os olhos de Gustave Doré tinham captado a tragédia humana ao ilustrar as sombras soturnas do inferno e do purgatório de Dante. Homens e mulheres como animais de carga configuram realidades e visões dantescas, tão absurdas que aparecem irreais. E, no entanto, continua viva a tela do holandês Brueghel – a “Parábola dos Cegos” – onde essas imagens são registradas como relato atemporal da trágica história humana. São cegos guiando outros cegos. E, por isso, todos caindo, um a um. Como não me enxergar nessas sombras, também cego?

Começo a entender que o homem – quando ousa construir o seu mundo pessoal – não deveria nunca sair dele. Pois optar por um mundo interior é, ao mesmo tempo, renunciar ao outro. Não se vive nos dois. Mas o inferno podem, sim, ser os outros. Além de mim próprio.

Hesito por, na verdade, haver um sonho, de olhos fechados, que se me repete sempre. Não sei interpretá-lo ou receio fazê-lo, mesmo porque sonhos são gritos roucos da alma. Da primeira vez, de tão revelador, machucou. Agora, menos. Nele, vejo a garrafa de champanha raro, fechada, num balde de gelo com arabescos em prata. Num guardanapo de linho, repousa o abridor em forma de cabeça de cavalo, em ouro maciço, com pequenas jóias incrustadas. O saca-rolha, aparentando um estilete, pede para penetrar a garrafa, fálica promessa de algo belo, refinado. Mas um cadeado enferrujado interdita a revelação.

Então, uma chave pequenina oscila, feita pêndulo de relógio. Insinua-me urgências, um tempo findando-se. Ou abro o cadeado, ou a perco. Decido pegá-la e rompo o cadeado enferrujado. Com o misterioso abridor de champanha, violo o lacre. Tenho a certeza de ser o néctar da vida. Mas não o provo. E fecho o vinho. Então, acordo.

É simples de doer : recebi a chave do cadeado. Basta a coragem de abri-lo e, depois, nunca mais fechá-lo. E saborear o champanha. A graça foi dada. É aceitar ou perder. O mundo interior é o real. Não há paz fora da alma. Por isso, quando o corpo geme, o sonho retorna. Vejo-me cego, guiado por outros cegos. Bom dia.

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