Virgens e o “Homem da Capa Preta”

picture (52)Em Piracicaba, deliciosa mentira – que perpassou gerações – foi a do “Homem da Capa Preta”. Mais aterradora do que a dele, fôra a do lobisomem. Mas, já àquela época, não se acreditava mais em homens-lobos ou lobos-homens. E o descrédito dessas e nessas figuras passou a criar complicações para jovens mais ousadas que insistiam em ser – como se dizia nos 1950 – moças casadoiras. Como explicar a perda de seus tesouros íntimos, se lobisomens não mais existiam? Foi assim que surgiu, na aldeia à beira-rio plantada, o “Homem da Capa Preta”.

Com a desmoralização dos lobisomens, era preciso encontrar outros culpados. Pois um povo e uma cidade não poderiam conviver em paz com gravidezes esquisitas e inesperadas, com donzelas comprometidas, com virgindades rompidas e mulheres casadas postas sob suspeitas. Assim, diante de raparigas e damas violadas e assediadas, criou-se um consenso que aliviou a cidade, maridos, noivos, pais: “Foi o Homem da Capa Preta.” Pois tantos eram os casos que se imaginava uma epidemia de tarados. Ficou mais fácil inventar fosse apenas um e misterioso personagem, o da capa preta, com o poder de aparecer em muitos lugares ao mesmo tempo. Os verdadeiros amantes e responsáveis deliciavam-se com a doce invenção.

Relembrei-me disso após ler que, entre moças muçulmanas da Europa, há como que uma epidemia de restauração do hímens rompidos em românticas aventuras de solteira. Sendo casadoiras, querem a virgindade de volta, pois homem muçulmano não é como o macho cristão, que aceita a encomenda sem conferir a qualidade. Macho muçulmano, pelo visto, além da peça original, também aceita retíficas perfeitas. A situação assemelha-se muito à tese de Baudelaire entre ser e parecer. Entre muçulmanos, pelo visto, importante não é ser virgem, mas parecer virgem.

Pensando na sabedoria de minha gente, em inventando o Homem da Capa Preta, vejo-me a refletir a respeito de hímens reconstituídos de muçulmanas. Estariam elas certas, seriam hipócritas? Concluo estejam certas, por um ângulo. E hipócritas, por outro. Pois se homem insiste em continuar sendo burro, que o seja para sempre. Desde os tempos de Adão e até hoje, homem ainda come carne de gato pensando seja de lebre. E lambe os beiços.

O fato é que a vida são farsas, cada vez mais farsas, as tais máscaras da civilização. Quanto ao hímen e à virgindade feminina, o Ocidente esculachou com tudo. O amor já perdeu a graça, amor de ocasião, amores descartáveis, corações anônimos e acovardados. Por isso, quando se encontram exceções, é como se estivéssemos diante do inimaginável, do fantástico.

Confesso eu mesmo ter-me espantado quando, numa reunião com jovens, ouvi a revelação quase simplória de um casal de namorados, namoro de alguns anos, moços próximos dos 25 ano. Eles diziam viver um amor casto, preservando-se para o casamento. A moça falou, com naturalidade que a todos emudeceu: “Ele sabe que, como mulher, eu tenho um sacrário da vida, não um instrumento para prazeres passageiros.” E completou: “Se virgindade fosse tão banal, por que mulheres nascem virgens?”

Fiquei com vergonha. E cabisbaixamente comovido. Bom dia.

Deixe um comentário