Vísceras das coisas

picture (66)Escrever é solidão profunda que apenas se compartilha se houver pelo menos um leitor. E, quando ele existe, o escrevinhador se sente povoado de todas as almas, de toda a humanidade. Pois um único leitor é o interlocutor que se busca.

Ora, digo eu, de mim e por mim, daquele que escreve: há mais o hábito de pensar e de sentir do que de escrever. Escrever é escrita. E escrita não passa de destino, seja bênção ou maldição. Encantei-me com o entendimento alemão do escritor, na palavra que o define: “Schriftsteller”. Pode ser, ao mesmo tempo, “aquele que coloca em forma escrita” ou “aquele que escreve para outrem”. Portanto, alguém que se dá. Entendendo isso, não se aceitará, jamais, que um escrevinhador – escritor, escrevente, escriturário – dê, de si mesmo, apenas de forma racional. Há que haver coração.

Uma leitora diz ter percebido, em algumas croniquetas, haver tristeza nos escritos. Sim, eu estava triste. E teria sido um farsante se, triste, escrevesse sobre alegrias. Quem ri, chorando, é o palhaço do circo, esse formidável e admirável ator da dissimulação e da simulação. Se o escritor fazê-lo, será um farsante. Despedidas são tristes, anoiteceres são tristes, perdas mais ainda. Vi, no meu jardim, o prêmio e o castigo, a bênção e a condenação, o destino de pai e filho, a separação, a ida, a despedida, o adeus. Minha filha, com seu talento reconhecido e requisitado, ia-se embora, cientistas de um grande país chamando-a. Havia todo um orgulho de pai: eu, o arqueiro – na imagem de Khalil Gibran – que lançara a flecha em direção à vida. Ela, a flecha, indo-se, buscando o alvo. Mas eu a perdera. Há um terrível sabor de derrota na vitória.. E me entristeci. Apenas isso.

Sei estar-me chegando a velhice. E envelheço – por graça que os céus e os deuses me deram – com a alegria do corredor da maratona que conseguiu chegar ao fim. E que se anima a disputar outra. Ora, não me seduzo com fantasias de imortalidade de corpo, da carne. Dou graças por participar da aventura humana. Participei e ainda participo. Mas chegou-me o momento de repensar minha presença no mundo. E, repensando-a, não me sinto solitário, nem isolado. Vejo a minha solidão pessoal povoada por filhos, netos, minha mulher, amigos, leitores. Descobri um tesouro: envelhecer pode ser um morrer jovem. Rejuvenesço na alma. Mas, mesmo assim, envelheço. Mas não me satisfaz a idéia do “dever cumprido” ou de ter gerado filhos e netos. Envelhecendo, recomeço. A pele da serpente se descola devagarinho, uma outra troca.

Aquela tristeza passou. Outras virão. E isso não tem importância diante do que se me revela nas pequenas e mais simples coisas. São as vísceras da vida, que parecem estar sintetizadas em frutas, nos vegetais. Há o encontro do sagrado e a impressão digital divina no ventre das coisas vivas. Quem tem alma de sentir deslumbra-se diante do mistério, esse tocar, o romper, o abrir frutas. Sinto-me parteiro, cirurgião privilegiado, a faca e dedos tornados bisturi invadindo-lhes o ventre. A laranja rompida, revelando o esplendor de suas vísceras, o fruto, o sumo, a vida. A melancia. O mamão, como que agarrado às sementes que lhe são libertadas. A maçã e o pêssego, eróticos, femininos, sedutores. A uva, com o umbigo preso ao cacho, mas explodindo de prazer na boca de quem a sabe sugar. A pinha – parecendo, exteriormente, agressiva, intocável – mas abrindo-se em doçuras inimagináveis quando desvirginada. E a romã, a goiaba?

É o que tento dizer aos meus queridos: envelheço com alegria e serenidade. Tenho, ainda, poder sobre a vida, a minha vida. Há muito, entendi que a vida é a morte. Nasce-se para morrer. E eu vivi para isso mesmo: vivi para morrer. Mas, enquanto não morro, vivo. E me espanto com o que descubro. Bom dia.

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