Visitar ou ligar a TV

Ligar TVAs pessoas não se visitam mais. São raras as que o fazem. O dom e o prazer da conversa, com isso, vão-se acabando. Querem colocar a culpa na televisão, que vem ocupando todos os espaços da família, dos amigos. Até certo ponto, parece-me que isso tem fundamento. No entanto, a televisão não passa de uma escolha, de uma simples escolha. Liga-se ou desliga-se o botãozinho quando se quer.

Há algumas estatísticas aterrorizantes: as pessoas já chegaram à média de 6 horas por dia diante da televisão. Ou seja: 1/4 do dia, ou semana por mês, ou três meses por ano. Em sessenta anos de vida, uma pessoa teria ficados exatos 15 anos diante da televisão. Em monólogo, portanto.

Apenas ouvindo, porque é a televisão que fala e fala o que bem entende, sem direito a réplica ou discordância. Não conheço um pai ou marido ou esposa que dê todo esse tempo de sua vida para os filhos ou um para o outro. Trata-se, portanto, de uma loucura. Ou, pelo menos, é o que penso eu, aterrorizado porque, nas poucas oportunidades que tenho de ver amigos ou de estar em reuniões sociais, sinto-me absolutamente ignorante: as pessoas falam apenas do que viram na televisão, de personagens de novelas, de entrevistados e de entrevistadores.

Lembro que, no dia em que o Presidente Collor apresentou a sua renúncia ao Congresso Nacional, havia sido assassinada aquela moça da televisão, atriz de novela. E então, presenciamos o absurdo: o país não se importou com a renúncia de um Presidente da República, acontecimento que define vidas, destinos, que implica mudanças de rumos na própria nação. O que se viu foi uma comoção nacional diante da morte de uma atriz de novela. Isso é perda de senso.

Ora, não sou contrário à televisão. Pelo contrário, considero-a, como veículo de comunicação, um dos milagres da inteligência humana. Mas tenho medo. As pessoas perderam o poder e a capacidade de raciocinar, de refletir por si mesmas. Estão repetindo o que “pensa” a televisão. Pior ainda, as pessoas estão ficando mudas.

Conheci, certa vez, um rapaz de quase 30 anos que não conseguia articular meia dúzia de frases. No entanto, era um assombro em computação, em análise de sistemas.

Um monitor de vídeo e de computador transforma-se, assim, no universo de toda uma geração.

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