Viver sem o sagrado

A Maçã e a SerpenteO Natal já se anuncia nos enfeites, nas casas comerciais, em vitrinas, nas árvores salpicadas de lâmpadas e de luzes. E a figura de Papai Noel – com obesidade adequada aos tempos – impera como se fosse anunciador e criador de alegrias. O apelo ao consumo se torna mais doce, num ambiente artificial que busca criar emoções e episódicas generosidades. Funciona. Mas, se instiga às compras, acaba por produzir ainda mais angústias. O profano parece vencer o sagrado. Parece.

Consumir significa destruir, utilizar, usar, corroer, fazer desaparecer. O consumidor produz a consumição. E consumição é, também, consumir-se, razão do desgosto, da inquietação. A origem do Natal é rememoração do sagrado. E não importa a religião, mas, sim, o espírito de algo que está além da compreensão. Até guerras cessaram – num armistício solene – numa noite de Natal. Basta ler e entender a confraternização que franceses e alemães fizeram nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, a mais cruel de todas. No profano da luta, o sagrado incompreensível imperou entre os homens. E, por uma noite, houve, para os soldados, “a paz na Terra aos homens de boa vontade.”

Uma pesquisa –  impressionante pela revelação melancólica – mostrou   que 99% – sim, 99%! – dos brasileiros confessam-se cansados, exaustos. E, infelizmente, não se lhes perguntaram os do quês, os porquês e, também, os para quês. Cansados do trabalho ou dos massacres do cotidiano? E como refletir sobre os porquês de tanto trabalho e exaustão, se nos esquecermos dos  para quês? Bastaria perguntarmo-nos: por que estou trabalhando tanto, por que essa exaustão toda se não sei mais para quê estou fazendo-o?

E lá virá tudo de novo: comprar e comprar presentes, talvez na esperança de que eles possam substituir o carinho e a ternura que faltaram nos demais dias do ano. E, então, endividar-se. E, depois, recomeçar o trabalho, com a melancolia de constatar que consumir não preencheu vazios da alma e do coração. Na realidade, nada mais fazemos do que repetir – no século das espetaculares tecnologias – aquilo que já faziam os nossos ancestrais hedonistas: “Edamus, bibamus, gaudeamus!”  “comamos, bebamos, folguemos!”  Fartamo-nos do quê? E por quê? E para quê?

Já se fala e já surge um novo caminho, que é o da “economia solidária”. Talvez, possa ser a terceira via que há tantas décadas o mundo procurou, entre capitalismo e comunismo. Mas não precisaria muito. Bastaria que o capital se humanizasse e que o ser humano voltasse a ocupar o privilegiado lugar que lhe foi destinado nos mundos animal, mineral e vegetal. Um humanismo verdadeiro levaria à compreensão dos porquês e dos para quês. E, então, talvez pudéssemos redescobrir a vocação humana para o belo e para o bom. Ou há quem se satisfaça, quem se orgulhe, quem se realize com isso que aí está, surgido por nossa própria culpa?

Não há como viver sem o sagrado. E o sagrado não é, simplesmente, o religioso, mas o que está oculto por trás ou acima do que a ciência e o entendimento não conseguem alcançar. Se não houver o sagrado, como poderei, eu, pensar em conversar com os meus mortos queridos, pais, irmãs, netinha, amigos? Se não houver sagrado, por que o profano do consumismo não nos basta, como não nos bastam, também, tesouros materiais que buscamos acumular?

Até as pedras das ruas clamam, pedem socorro. Elas parecem querer, pelo menos, ser vistas, olhadas, reconhecidas, respeitadas. E o homem, perdido na multidão? Nada se espere de Papai Noel. Ele é outro, mais um enganador. Bom dia.

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