Panelaços, modelos de vulgaridade

societyÉ um cansaço tremendo constatar que, em vez de melhorar – e com tantas conquistas da ciência e da tecnologia – a civilização piora. E não me refiro, absolutamente, a questões relacionadas às mil formas de corrupção. Que essas, em meu entender, não são endêmicas, mas históricas. O mundo é corrupto. O ser humano é corrupto. E não adianta protestar – hipócrita ou honestamente – diante de uma realidade fatídica. O que se há de fazer é – insistente e persistentemente – construir, polir, esmerilhar, como se fosse uma pedra. O ser humano é uma construção. Logo, as sociedades, também.

Quando ouço ou leio o PT – quase sistematicamente – culpando as “elites” por problemas que, segundo eles e intelectuais, são responsáveis pelo atraso do Brasil, percebo o quanto estamos longe de qualquer solução. O problema é o contrário. O Brasil, nestas últimas décadas, sofre exatamente pela ausência (grifo meu) de elites. Perdemo-las, em quase todos os níveis sociais. Por elite, sempre se entendeu o que há de melhor e de mais alta qualidade em grupos sociais.

Quando, portanto, há elites verdadeiras, os modelos, valores, princípios servem de referenciais. As relações humanas são melhores, a educação tem mais qualidade, a visão de mundo é mais racional e refinada. O contrário disso são as turbas que, estas sim, podem e devem ser influenciadas e polidas. O melhor há que influenciar o pior. Caso contrário, haverá o caos. A Antiguidade latina sabia disso e temia-o: “corruptio optimi pessima – a corrupção do ótimo é péssima. Assim, uma nação, uma sociedade entram, inevitavelmente, em colapso quando suas elites – o que há de melhor – desaparecem. O Brasil está sem elites.

Numa democracia verdadeira – e, portanto, civilizada, consciente, responsável – o que há de mais significativo e importante está na participação popular no processo político. Trata-se de vigilância diante de irresponsabilidades de seus representantes. Sem vigília, o mal – cuja tendência é espalhar-se e crescer – passa a considerar-se inimputável, sem punição. O descaso de um povo conduz, inevitavelmente, ao sentimento de impunidade pelos malfeitores. A vigilante participação popular, portanto, é fundamental numa verdadeira democracia.

Ora, participar é tomar parte, ser parte, compartilhar. Assim, pode-se tomar e ser parte de um movimento sério como, igualmente, de movimentos e ações irresponsáveis; de movimentos espontâneos e de bagunças manipuladoras. Quando se trata de movimentos populares, pode-se saber como começam, mas não como e quando terminam. Em democracias sérias e sólidas, movimentos populares são organizados e conquistados a partir de regras sólidas que tanto respeitam os direitos de manifestantes como os dos demais da população. Há espaços determinados para se realizarem, há critérios, há limites, há até horários definidos.

A ausência de verdadeiras elites no Brasil permite que estejamos vivendo uma democracia infantil e, por isso mesmo, inconsistente. Liberdade e licenciosidade confundem-se; pleiteiam-se direitos sem considerar deveres. Perdeu-se o senso de limites, como se houvesse liberdade plena, sem regras, sem leis, sem normas. E a civilidade – que é o fundamento da civilização – desapareceu. Elites e turbas assemelham-se.

O “panelaço” foi um movimento que nasceu no Chile na década de 1970, conhecido como “cacerolazo”. Juntamente com ele, surgiu a greve dos caminhoneiros. A história comprovou que – insufladas pelos Estados Unidos – eram ações conjugadas para derrubar o governo constitucional de Salvador Allende. Aconteceu a tragédia. Que se espalhou por toda a América Latina. E tornou-se instrumento político.

No Brasil – da mesma forma como se deve respeitar manifestações legítimas – há sérios motivos para se discutir a autenticidade de “panelaços”. Pois eles surgem a partir do grupo social mais poderoso, aquele que deveria ser considerado a elite paulista, instalada no privilegiado nicho de Higienópolis. Mas não são elites, pela vulgaridade que demonstram. Quando batem panelas e chamam a presidenta da República de “vadia”, “puta”, “vagabunda”, “piranha” – como fizeram, também, nos setores mais caros dos camarotes durante a Copa do Mundo – revelam e demonstram a mediocridade de lideranças apenas econômicas, sem cultura, sem educação, sem civilidade, sem passado e nem futuro.

O Brasil tem sido vítima, sim, de falsas elites, de grupos de poder sem qualquer qualificação a não ser a econômica. E essa vulgaridade, essa amarga e mísera realidade se confirma e se amplia quando, no Congresso Nacional – que deveria ser templo da democracia – deputados estúpidos batem panelas, fazem “panelaço”, aviltando e profanando aquela casa, transformando um templo num bordel.

Como respeitar uma instituição envolvida em tantos escândalos e responsável por dar tantos poderes a homens como Eduardo Cunha e Renan Calheiros? Como pode, um Renan Calheiros – sem que Higienópolis faça “panelaço” contra ele – ser o homem que controla o Brasil, que negocia a governabilidade do país? Renan Calheiros é melhor do que Dilma Roussef? Qual é o critério de certos setores poderosos para protestar e aplaudir?

O Brasil não tem elites, mas grupos de poder medíocres e vulgares. Precisamos de elites verdadeiras já! Como já as tivemos até um passado ainda recente.

6 comentários

  1. Delza Maria Frare Chamma em 11/05/2015 às 11:48

    Aplausos para sua Crônica, a primeira a nos chegar nesta sua nova fase, Cecílio. Histórica e analítica trouxe informações e ou lembranças que levam à reflexão. Muito boa! Apenas, discordando um pouco de você e concordando com os analistas que mostram que o papel das elites, em nosso país, longe de terem contribuído historicamente para a transformação de nossa sociedade (a qual teve seu início na família patriarcal e na senzala) em uma sociedade mais justa e igualitária, sempre agiu, ao contrário, tornando mais fortes o grilhão sobre a massa escrava e sobre o povo enquanto tornava mais absoluto o seu poder de domínio sobre eles. Assim sendo eu apenas substituiria o que você chama de “elites” por “lideranças.” E em sua frase: – “Em democracias sérias e sólidas, movimentos populares são organizados e permitidos a partir de regras sólidas que tanto respeitam os direitos de manifestantes como os dos demais da população”. Eu trocaria o “permitidos” por conquistados. Direitos não se permitem, são conquistados coletivamente. Lideranças mediando a participação popular e esta, em luta pela defesa e conquista de seus direitos, respeitando os deveres e normas democráticas, onde há sempre lugar para a luta e nunca para o ódio e o ressentimento.

  2. Vardir Chamma em 11/05/2015 às 12:35

    Cecílio, Parabéns!!!!!!!!!!!!!! Comoveu-me profundamente sua crônica “Panelaços, modelos de vulgaridade”. Num país em que Eduardo Cunha é presidente da Câmara dos Deputados e Renan Calheiros, Presidente do Senado, esperar o quê dessas duas Casas que deveriam ser a Casa do Povo ao qual representam em uma democracia? Sobre o Judiciário, como já disse um grande político, este – “é uma caixa preta” – Saudades do Supremo Tribunal Federal (STF)que resistiu à ditadura nas figuras de Hermes Lima, Victor Nunes Leal e Evandro Lins e Silva cassados pelo AI-5 de 13/12/ 68 por não aceitarem a violação da Constituição Brasileira. Ressalto ainda análise precisa sua sobre o fato de que a corrupção é universal. Ela, como bem frisou você, não é endêmica mas é histórica.

  3. LUÍS ANTONIO RÉ em 12/05/2015 às 13:21

    Crônica – quase sempre.
    muito boa a primeira, gostei sem indagações!
    forte abraço.

  4. Toni em 12/05/2015 às 21:50

    Cecílio está escolhendo ser um crítico de costumes? Voce é maior!

  5. toni em 13/05/2015 às 13:33

    Ser crítico de costumes é pouco para voce, Cecílio. Censurar comentários é ruim para o jornal.

  6. Eloah Margoni em 23/03/2016 às 16:45

    Bela e lúcida crônica, Cecílio! Como sempre, aliás. O difícil é sabermos como guinar o barco, individualmente, nessa realidade bastante cruel… Enfim, seja no mundo ou num país, só acontece o que pode acontecer. E às vezes podem acontecer coisas altamente lamentáveis. Nem sempre nossa vontade ou nossa luta pode mudá-las, mas alguma contribuição positiva precisa, por nós, sempre ser dada!

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