Sangue, suor, lágrimas. E trabalho.

Jornal A Tribuna Piracicabana - edição n. 9.928, pg. 01, de 7 de julho de 2012 - Ano 38É comum, ainda hoje – e cerca de 75 anos depois – repetir-se a frase histórica de Winston Churchill ao levar a Inglaterra a enfrentar a loucura fratricida de Hitler. Quase todos resumem-na a “sangue, suor e lágrimas”, que Churchill ofereceu como promessa aos ingleses. Omite-se, descuidadamente, mais uma promessa contida na frase:“trabalho”.

Ao escrever sobre os 41 anos de A Tribuna Piracicabana – que acompanho desde o nascedouro – foi exatamente a frase de Churchill que me veio à lembrança. Pois Evaldo Vicente e sua família – junto a abnegados que a eles se agregaram – derramaram, pelo jornal, exatamente “sangue, suor e lágrimas”. Mas com trabalho, muito e exaustivo trabalho, com forças tais que apenas Deus pode ter-lhas dado. Um desatento leitor jamais conseguirá imaginar o que é, ainda, manter um pequeno-grande jornal interiorano. Pequeno no tamanho, grande na nobreza de idealismo e na honestidade de propósito.

Lembro-me – e isso me dá um orgulho imenso – de o menino Evaldo, um adolescente, querendo trabalhar em jornal, ser jornalista. Ele tinha 14, 15 anos. Eu o vi – as casas de nossas famílias eram quase vizinhas – e, de imediato, percebi a vontade dele. Lembrei-me de mim mesmo, àquela idade, todo tomado de sonhos, de ideais, de esperanças. O menino Evaldo Vicente deixava transparecer tudo isso pelos olhos. E ficou conosco, começou conosco.

Éramos todos jovens, uma redação vibrante de moços idealistas tentando levar O Diário nas costas. Lá estavam, entre outros, Antônio Messias Galdino, Luiz Antônio Rolim, João Maffeis Neto, Padre José Maria de Almeida, Roberto Antônio Cera, dos que me recordo ao dedilhar o teclado, “currenti calamo” (ao correr da pena, rapidamente) como diríamos antigamente. Perdoem-me as dezenas de velhos companheiros em relação aos quais a memória falhou.

Entreguei-o aos cuidados de meus companheiros, em tempos amargos e difíceis, escritos pelos horrores da ditadura e da covardia de muitos. O menino Evaldo, destemido, ingressou no pequeno exército de sonhadores e sua humildade e inteligência cativaram-nos, de imediato, a todos nós. Sua ascensão foi rápida. E queria – e conseguiu – aprender com todos: redatores, revisores, gráficos. Foi sua primeira escola e, modéstia à parte, boa, corajosa e consciente da vocação missionária do jornalismo.

Depois de um bom estágio em São Carlos, ao lado do saudoso S. Ferraz – que foi um dos meus primeiros mestres também – Evaldo Vicente aprendeu o que Ferraz tinha de sobra e eu, de praticamente nada: administração de jornal. E o menino se fez jornalista e administrador, competente e brilhante nos dois lados dessa moeda exaustiva.

Estudioso, amante também de literatura, mestre em jornalismo, a precocidade de Evaldo inspirou-me tal confiança que não hesitei em, por muitas vezes, deixá-lo – em minhas ausências – responsável pelo comando da redação e oficinas. Mais ainda: dois de meus livros – Bagaços de Cana, em 1978, e, bem mais tarde, “Miserere mei, amor” – foram revisados e revistos por ele. Apaixonado por Euclydes da Cunha, Evaldo está no nobre clube dos “euclidianos”. E isso fez com que ele aprimorasse o seu estilo, o conhecimento da Língua, a sensibilidade literária.

Quando, certa noite, o Evaldo me procurou para informar-me que iria fundar um outro jornal, “A Tribuna”, tive receio, tentei dissuadi-lo. Eu me via, novamente, a mim mesmo, na terrível luta para manter um também pequeno jornal, enfrentando todos os desafios, os boicotes, as artimanhas políticas, a ditadura. Mas o já mocinho Evaldo estava irredutível: iria fundar o seu jornal. Tentei ainda outra vez, buscando convencê-lo a, pelo menos, iniciar com um semanário. Obstinado, ele manteve a decisão. E, há 41 anos, na manhã de um 1º de agosto, Evaldo Vicente lançava A Tribuna Piracicabana.

Para mim, ainda agora, isso me parece um milagre de sobrevivência, um mistério de mortes e ressurreições seguidas. Sei do tanto sangue d’alma, dos suores dos corpos e das lágrimas dos olhos que construíram e ainda constroem este pequeno-grande jornal. E do trabalho insano, persistente, quase infinito para que o sonho não viesse a ruir. A fé de Evaldo Vicente e de seus familiares – a começar de seus falecidos e sábios pais – fez A Tribuna chegar aos 41 anos. E que a levará a muitos outros, queira-o Deus.

Hoje, Evaldo Vicente é o decano dos donos de jornais de Piracicaba. E semeou outros periódicos na região. Respira jornalismo e empreendimentos, num exemplo de heroísmo, de perseverança, de fé, de honestidade. E é isso que faz a grandeza da A Tribuna Piracicabana, enorme em sua fidelidade à nossa terra, à nossa gente.

Há uma imprensa grande e uma grande imprensa. A Tribuna Piracicaba faz parte desse seleto grupo de grandes pequenos jornais. Ave, Tribuna! Ave Evaldo e família Vicente!

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