1954 e o nome do mistério: Marilu

Foto: Ana Almeida Santos/ Olhares

Viver vive-se vivendo (17)

Cada ano da vida muda-nos a existência. Uns, no entanto, mudam mais. Apenas há algum tempo, dei-me conta de 1954 ter-me sido o ano decisivo, luminoso, marcante, como que um ano de revelações, descobertas, milagres.

No início de janeiro, com meus 13 anos, o mistério foi-me revelado. O nome era Marilu. Nunca soube de toda a verdade, preferi desconhecê-la. Mas tive a certeza de que meu pai e um primo mais velho haviam combinado. Pois, naqueles tempos, sempre havia um tio, primo ou um amigo da família para ajudar menino a “ficar homem”. E “ficar homem” significava conhecer, no sentido bíblico, “mulher de verdade”, não mais as meninas dos porões, nas esquinas. Marilu era “mulher de verdade”.

Foi em Bauru. Eu era o menor de todos, o mais novinho. Todos os outros eram rapazes. E meu primo convidou a rapaziada a “ir até a zona”, a rua célebre, a Costa Ribeiro. E falou, apontando-me: “Hoje, ele irá, querem apostar?” Eu era a aposta deles. Fui levado. Minhas pernas de criança tremiam. Na sala grande, tudo à meia-luz, mulheres bebericavam. Meu primo aproximou- se de uma delas, cochichou-lhe algo, a mulher sorriu. Era Marilu. Não tive o direito de escolher. Nem de fugir.

Marilu, sorrindo, tomou- me a mão, levou-me por um corredor com luz ainda mais mortiça, tons azuis. Ela era generosa, calma, tive medo de ela perceber-me a tremedeira de menino de 13 anos. Deixou-me num quarto, saiu, retornou logo depois. Quis saber de minha idade. E eu, acreditando estar valorizando-me, menti: “Já tenho 15 anos.” Ela sorriu ainda mais: “Pensei tivesse 20.”

Certamente para relaxar-me, Marilu começou a contar a história de sua vida, a melodramática história que quase todas as prostitutas contavam: desonrada pelo namorado, fora expulsa de casa, conhecera um homem mais velho, ele a abandonara, terminara na zona. Emocionei-me e penso ter jurado protegê-la pelo resto de minha vida, pobre moça de Rancharia. E sei lá como, Marilu me abraçou, querendo proteção, eu a protegi, senti-me Humphrey Bogart protegendo Ingrid Bergman. E aconteceu.

Nunca mais me esqueci de que, naquele janeiro de 1954, Marilu, “mulher de verdade”, me iniciou para “ficar homem”. Tanto devo ter- me encorajado que, naquele mesmo mês e ainda com 13 anos, fui a São Paulo, com um grupo de coleguinhas, assistir às comemorações do “IV Centenário” da nossa Paulicéia. Como menores podiam viajar desacompanhados, isso não sei até hoje. Mas me lembro de chuva de estrelas prateadas de papel caindo sobre a Praça da República, a inauguração do Ibirapuera…

Foi, também, em 1954, na manhã trágica de 24 de agosto, que o Padre Eduardo Affonso apareceu, lívido, à porta da sala de aulas. Sua ordem foi seca e direta: “As aulas estão suspensas. Voltem para suas casas rapidamente e em silêncio. O Presidente Getúlio Vargas se suicidou.” Pensei em meu pai que não gostava de Getúlio. E em Carlos Lacerda, cuja figura exuberante me fascinava, o Lacerda sem- medo, orador hipnotizante, jornalista com texto vulcânico. Nas ruas, os ódios contra Lacerda aumentaram: “Lacerda foi culpado, ele matou Getúlio.”

Morávamos, então, quase em frente ao Teatro São José. Lojas fechavam as portas. Policiais ocuparam a praça José Bonifácio, pessoas corriam. Eu queria saber das coisas e ninguém me dava importância. Fiquei magoado, como se o mundo precisasse saber que eu já era homem, que eu tivera Marilu, “mulher de verdade”. Ninguém se importou comigo. Então, jurei que haveria de aprender alguma coisa de política e passei a ler, com mais afinco, o “Estadão” dos Mesquita.

Em 1954, o Corinthians foi campeão paulista, o “Campeão do IV Centenário”, título decidido no comecinho de 1955. Empatamos com o Palmeiras, gol de Luizinho. Saí correndo pelas ruas, dei voltas pelo jardim. E encapei meu livro de História Geral com uma foto de revista na qual Gatão, o glorioso caipiracicabano Gatão, estava saltando mais do que o goleiro adversário. Eu queria ser como Gatão. Ou como o Baltazar.

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