A amarga eucaristia

Viver vive-se vivendo (9)

A foto, eu já a tinha, mas escondida em algum envelope de meus baús. São meninos e meninas, contritos, numa escadaria, posando para o fotógrafo junto a um frade sorridente. Logo ao início deste Século XXI, um amigo de infância que também está na foto – o Waldir Rodrigues – mandou-me uma cópia como recordação. Éramos nós, meninas e meninos do Colégio Assunção, em nossa Primeira Comunhão. Waldir anotou a data: 29 de agosto de 1948.

Na busca do tempo vivido, quando mais se vive mais se lembra. E mais vivas as recordações. Lá estão, na foto, amigos queridos, muitos que se afastaram, outros que se foram para sempre, algumas amizades que permaneceram ao longo da vida: o Guto Souza Campos, meu querido Guto que morreu tão cedo; o Pedro Chiarini, o Airton Pinaza, o José Carlos Freire da Rocha, o Homerinho Arruda, Irineuzinho Bacchi, entre outros, e com meninas que, transformadas em princesas depois, não conseguimos identificar.

Foram, no entanto, estranhas feridas que aquela foto reabriu. Revejo- me nela e, de princípio, não entendia aquela como que nuvem de tristeza no semblante do menino. Por que seria ou estaria triste uma criança de 8 anos, na sua primeira comunhão? E por quê, se a Eucaristia – mesmo na vida adulta e quando a fé se escondeu ou claudicou – sempre foi o grande mistério, o que mais fascinou? Vejo-nos, pois, na foto, meninos e meninas, em estado de contemplação, pelo menos a pureza de um momento ritualístico, como que de iniciação. E, como um soco no estômago, recordo-me de tudo, uma chispa acendendo-se-me na memória.

Eram tempos, os da nossa infância – anos 40, lá está a data – de crenças fortes, de ritualismos, da presença marcante da Igreja nas famílias. Os sacramentos eram parte da vida, acompanhavam-na: Batismo, por ter nascido; o Crisma, para fortalecer e ter forças; a Eucaristia, alimento da alma. E a Primeira Eucaristia era um dos momentos fundamentais, como rituais semelhantes em relação a outros povos. Então, eis que me recordo de sofrimentos que começaram a brotar, a surgir, a maldição das diferenças econômico-financeiras num colégio que se dizia formador, o das freiras.

Como em todos os tempos, havia meninos ricos e meninos pobres. Mas não sabíamos disso, nós, crianças. Os rituais, no entanto, acabavam revelando-o. Pois não me lembro o que fizeram meus pais para comprar ou mandar fazer o terninho branco, tanta a pobreza, a morte de uma irmãzinha ainda fazendo sangrar as feridas do coração. Mas eu me recordo do santinho, da lembrança que as crianças deveriam dar a amigos e parentes. Aquele santinho feriu-me ainda mais a alma.

Davam-se santinhos de Primeira Comunhão. Eram gravuras pequeninas em cujo verso escreviam-se o nome da criança, frases, mensagens. Meus amiguinhos começaram a mostrar seus santinhos, levando-os à escola, não sei se antecipando-se aos pais, se furtando-os de casas. Disputava-se para ver qual dos “santinhos” era o mais bonito. E queriam saber do meu, onde estava e como era o meu “santinho”. Eu não tinha. E, então, apareceu a agonia de uma exclusão, a quase vergonha, a humilhação de ser o menino “sem santinho”. Acho que me fechei em mim mesmo, não me recordo de ter perguntado a meu pai “do meu santinho”, talvez por já ter assistido a dores demasiadas em minha família, terríveis dores que, no entanto, me deixaram sabores agridoces na alma, como se tivessem sido temperadas, as dores com amor.

Recordo-me de dona Nenê Souza Campos, mãe de Guto. Ela, quando Guto me mostrou o seu “santinho”, quase lhe deu um safanão, foi áspera, tirou-lhe a gravura das mãos e eu tive a certeza de que dona Nenê, sabendo das condições de minha família, a tragédia que nos machucava, não quis ver-me humilhado. Mas, então, aconteceu. Foi na véspera da Primeira Comunhão. Morávamos, já, na rua São José, ao lado da Papelaria do João Fonseca, quase à frente do Cine Broadway. Quase noitinha, seo João – que chamávamos de “Gato Louco” – bateu palmas, chamou meu pai e eu vi quando ele lhe deu um pacotinho que acabara de chegar na papelaria, uma encomenda. Meu pai exultou, lembro-me de vê-lo abrir o pequeno embrulho: lá estavam os meus “santinhos”. Mas sem nada impresso no verso, aquelas letras de ouro que marcavam os “santinhos” de meus colegas.

Não sei de quem foi a idéia, se de meu pai, se do Orlando Michelin, vizinho nosso, o querido Orlando que, muito moço ainda, esteve sempre tão próximo de nossa família. Sei, apenas, que, naquela noite, o Orlando ficou – no escritório de contabilidade, ao lado de nossa casa – datilografando palavras no verso de “meus santinhos”.

No dia da Primeira Comunhão – 29 de agosto de 1948, data marcada na foto do Waldir Rodrigues – o “meu santinho” não era o mais bonito, nem o mais rico. Mas o mais original. E nascido da generosidade de meu pai e do Orlando Michelin. E da invenção que a pobreza faz nascer.

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