A bela Augusta e o milk shake

A rua Boa Morte fazia, também, esquina com a São José, quase como nesta primeira década do século 21. Mas não estou escrevendo sobre o agora. Recolho coisas do fundo do baú, lembranças muito mais de minha Piracicaba amada do que de mim mesmo. Na realidade, entendo, hoje, que não passo de uma pequenina história individual diante de uma geografia encantadora. Sou e fui apenas eu em Piracicaba. E, naqueles anos do pós-guerra,  esta terra nem sequer sabia de minha existência. Eu era e fui apenas um outro garoto nas suas ruas e praças, nas lagoas e nos rios e nos riachos.
Naquela esquina da São José com a Boa Morte, existia o bar então mais chique de Piracicaba, em meados e final dos 1940:  a Nova Aurora. Já contei mas não posso deixar de repetir-me: naquela rua, a Boa Morte, entre a São José e a Moraes Barros, estava a “calçadinha de ouro”. As moças de famílias mais abastadas iam e voltavam naquela calçada, o “footing”. Os pontos-chave eram a bombonnière do Passarela, onde se instalou o Banco Itaú, e a Nova Aurora, onde ficou o Bradesco. O que era doce acabou-se e o ouro da calçadinha passou a ser outro, não mais o do encanto, mas o das contas bancárias.
Ao final da Primeira Grande Guerra, já em 1946, o Brasil começara a receber produtos, hábitos, costumes e  influências estadunidenses, os grandes vencedores da guerra. Vieram a Coca Cola, as meias de nylon, os Cadillacs. E o milk shake. Na Nova Aurora, o modismo da moçada elegante – moças da aristocracia rural caipiracicabana, rapazes, estudantes da Agronomia, a Escola Agrícola – era beber milk shake na Nova Aurora, desculpa para namoros, seduções, conquistas. A paquera chamava-se, então, flerte, de flirt, verbo inglês. As pessoas flertavam. E, na Nova Aurora, ao sabor do milk shake, pois moças “de família” não saboreavam bebidas alcoólicas. Pelo menos, em público.
Na Nova Aurora, trabalhava, como garçonete, uma das moças mais belas, atraentes e sensuais de Piracicaba. E percebam: no advento da influência dos Estados Unidos, falávamos ainda de garçonetes, de garconnières, marcante influência francesa. Hoje, soa irônico: Augusta, aquela bela empregadinha da Nova Aurora, era a garçonete que também servia milk shake. Ela, Augusta, iria tornar-se a toda poderosa, influente, admirada e respeitada Augusta Maygton, depois Augusta Maygton Ribeiro, a valente e sempre bela Augusta do Vosso Pão. Depois, da Padaria Inca. Mas sempre Augusta, imbatível, revolucionária nos costumes e nas decisões, pioneira em empreendimentos e de beleza sem concorrente.
Não, acho que me confundo, pois o tempo passou e as lembranças estão no fundo do baú. Confundo-me porque, naquela esquina – da rua São José com Boa Morte – havia uma outra mulher, madura, exuberante, que foi, então, mais atraente e misteriosa do que Augusta, a então humilde mas atrevida garçonete. Era Dona Rosa, a herdeira do Hotel Lago,de Seo Lago, que nunca ninguém soube – ou quem soube não revelou – se era marido ou amante dela. Dona Rosa era de uma sensualidade atordoante, com sua boca sempre escandalosamente desenhada por batom, as faces avermelhadas de ruge. O grande ator, dramaturgo, poeta, autor e ativista política Mário Lago – figura exponencial da Rede Globo – era parente deles. E, em suas memórias, conta de suas férias em Piracicaba, de suas visitas à nossa terra.
Pois bem. Não me esqueço daquela noite, não poderia esquecer-me. Morávamos numa casinha à frente da Nova Aurora, ao lado do Hotel Lago. Sei que alguém me pediu para buscar, no bar onde Augusta reinava com sua juventude exuberante, um copo de milk shake. Lembro-me até hoje: “De coco.”, disseram-me. Pedi, fiquei aguardando, deslumbrado com aquela mocidade bonita sentada às mesas, o burburinho, o desfile das moças na “calçadinha de ouro”, os rapazes postados no meio fio da calçada, como observadores e avaliadores de um desfile de fêmeas. Mas meus olhos estavam postados em Augusta, a garçonete. Além da beleza dela, da sensualidade que se espalhava como vírus, Augusta era atrevida, audaciosa, indiferente a críticas, pelo menos aparentemente.
Então, Augusta me chamou pelo nome como me chamavam na infância, mostrando conhecer-me, o menino que era vizinho de frente daquele mundo apaixonante da Nova Aurora: “Toninho, tá pronto o milk shake.” Apavorei-me. Como Augusta poderia conhecer-me? Apanhei o copo, um copázio, atrapalhando-me entre mesas e pessoas. E derrubei o milk shake no rosto e no decote de uma jovem que flertava com o agricolão na mesa mais próxima. Augusta deu uma gargalhada, rindo-se mais do desespero escandaloso da moça com o rosto lambuzado  do que de minha atrapalhada. E eu saí correndo.

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