A maria-mole do Bento Chulé

 

Foto: Jussara Fabris Leite/Olhares

Viver vive-se vivendo (15)

Sabores da infância acompanham o homem até o final de sua existência. Depois de Proust, pouco há a comentar sobre isso. Pois um simples biscoito, a “madeleine”, mergulhado numa xícara de chá, desatou, na alma do grande escritor, a torrente de emoções e de lembranças que desaguou no monumental “Em busca do tempo perdido”.

Cada um de nós tem a sua “madeleine”. Ou fica à espera de que, algum dia, ela apareça inesperadamente, no sabor de um confeito, talvez de uma fruta que se não mais encontra nas ruas da cidade. Cadê sapoti? E bananeiras, mangueiras, tomateiros, mamoeiros dos quintais?

Era assim: ruas que pareciam jardins, quintais que dispensavam quitandas. Talvez, a “madeleine” esteja à espera de ser alcançada com a mão, tomada no pé. Ou, então, num simples sanduíche de pão com ovo. Ou a mistura divina da banana com pão. Ou da manga com sal. A alma lá se me vai derretendo de doçura, lembranças de ruas, de quintais e da “madeleine” que, tenho certeza, haveria de me transportar a mares espirituais sempre d’antes navegados, a céus e terras que me parecem distantes.

Contar coisas, tenho certeza, é minha busca do tempo vivido. E estava lá, tão próxima de mim: a maria-mole do “Bento Chulé”. A cocadinha do “Bento Chulé”, o seo Bento Sampaio, sempre de semblante embravecido, talvez fingindo neurastenias que não poderiam existir, pois não poderia ser bravo ou neurastênico quem vendia marias-moles e cocadinhas como o Bento Sampaio, o “Bento Chulé”.

Era um quadrilátero mágico. Na rua do Rosário, quase na esquina da rua Prudente de Moraes, ficava o bar, mercearia, boteco, botequim, não sei como definir aquela porta do “Bento Chulé”. Sei que ter sido o lugar das delícias. Na calçada, ele deixava caquis para aumentar a gula das pessoas, vendendo-os a preços especiais.

Desconfio que “Bento Chulé” era careiro, não sei. Da mesma forma como não sei, ainda que imagine, porque o apelido de “Chulé”. Sei, também, que eu me assustava pois, na outra esquina de seo Bento, ficava o José Francês, velho árabe, dono da Casa Francês, respeitado, mas de carantonha assustadora, homem de um olho só. Apenas a maria-mole do “Bento Chulé” era capaz de me dar coragem para passar em frente ao José Francês, amigo querido de meus pais.

E o Elias Neme? Na esquina da rua 13 de maio com a Alferes, ficava a Casa Neme, do Elias Neme, da família do glorioso Mário Neme. E, por ali, o armazém dos Bueloni. E o “Gato Preto”, boteco famoso que vendia um pouco de tudo, desde capilé a frutas já quase apodrecidas, além de, às escondidas, fazer apostas do jogo-do-bicho. E a “Loja da Lua”, do Otávio Jacinto, ainda na rua Alferes, fazendo esquina com a Prudente. Não sei quem fazia as cocadas e as marias-moles do “Bento Chulé”. Devia ser uma fada. Ou ter mãos de fada. Pois nunca mais, ao longo da vida, comi marias-moles como aquelas, das branquinhas que pareciam flocos de algodão, das queimadinhas que tinham cascas de coco ralado. Eram para comer com a boca e com o nariz, afundando a cara nelas, lambendo os beiços, sujando as mãos.

E, depois, correr pelas calçadas gritando “Bento Chulé, Bento Chulé” – para ouvir o resmungo dele, que era um grito: “Bento Chulé, seu rabo que é.” Correr, correr e, poucos quarteirões além, chegar ao Parque Infantil: ouvir a gargalhada de Cacilda Azevedo, esbarrar na figura – nem sei porque essa imagem não me sai do pensamento – de Ricardo Ferraz de Arruda todo vestido de branco, o homem imponente de terno branco… E alguém dizendo “vá lavar essa cara, menino”, vestígios de maria-mole no nariz.

Carrego ainda viva a lembrança da tarde em que a maria-mole e a cocadinha do “Bento Chulé” me salvaram de meu tio Elias Cecílio, dentista. Eu amanhecera com uma dor-de-dente enlouquecedora. Obrigaram-me a fazer bochechos não sei se com pinga, se com fernet, pois meu tio Elias apenas iria me atender à tarde: “para extrair esse dente, ainda de leite mas complicado.” Tremi ao me lembrar do ruído do motor. E, para retardar a ida ao consultório de meu tio, passei no “Bento Chulé” e comi maria-mole e o dente doeu ainda mais. Quando abri a boca suja de doce, meu tio Elias gritou: “moleque de rua, sua mãe não ensinou você a tirar essa porcaria da boca?” E me mandou embora.

À noite, com um pedaço de barbante, puxei o dente e ele caiu. Salvo, pois, pela maria-mole do “Bento Chulé”…

3 comentários

  1. Familienforschung Stipp em 18/11/2012 às 14:39

    Seu Cecílio
    Praeclarus
    O Bento Chulé foi pai do Ulisses, um colega da Escolinha do Zanin, a maior formadora de Guarda Livros do Brasil.
    Escola competente, Professores muito bons, não me esqueço deles, muitos marcaram a vida deste terráqueo, o Prof. Leandro Guerrini, o Prof. Jair Toledo Veiga, o Prof. Benedito de Andrade, o Prof. Wadih Millen e tantos outros.
    A Escolinha do Zanin formava Profissionais, saí de lá em 1953 Técnico em Contabilidade, com um certificado de capacidade técnica profissional que muito ajudou por um bom tempo, até poder cursar uma faculdade… Formar família…
    (Ganhei do meu tio Oswaldo Libório o terno da formatura e do tio Benedito Liborio contador da Agronomia, uma caneta Mont Blanc, a escrita contábil e fiscal l eram feitas à mão, tivemos aulas de caligrafia na Escolinha do Zanin).
    A formatura foi linda, missa e visita ao cemitério, sessão solene, baile, e com o dinheiro que sobrou um banquete na Brasserie. E depois do Banquete, a penosa missão de levar os Professores para as suas casas, passando antes por umas casas esquisitas com luz vermelha e imagem de santos na entrada…
    Mas Bento Chulé vendia de tudo na sua "enorme" mercearia da cidade. Mercearia? Sei lá o "ome" vendia de tudo.
    Eu e meus irmãos quando íamos visitar nossa querida avó, arrumávamos uns trocados pra comprar uma "fieira" de traques, motivo de alegria e de instrução para as vicissitudes da vida futura.
    Também a Escolinha do Zanin muito formou. Lembro-me até hoje que ali aprendi o que era um Livro Diário, e que havia necessidade de constar desse Livro o Termo mo de Abertura e de Encerramento, e que a escrita mercantil tinha outros requisitos importantes, sem o que o Livro não se revestiria das qualidades extrínsecas e intrínsecas para que se fizesse prova a favor e contra o comerciante…
    Coisas do passado…
    Não se aprendia essas coisas "orriveis" nas Faculdades Paulistanas…
    Mas voltando ao Mui Digno representante do comércio piracicabano (temos uma praça com o nome Bento Chulé???), como ele vendia de tudo, não faltava fumo em rolo, palha para cigarro, e até pito de barro.
    Chego ao ponto nevrálgico…
    Pito de Barro? Sim caro sobrinho, Pito de Barro.
    E de quem o Bento Chule comprava "pito de barro"?
    Ora, um dia…
    Um dia ele recebeu a visita de um senhor bem vestido, com uma maleta de representante, dizendo-se representante comercial de uma fabrica de pito de barro…
    É mole?
    Linneu José Libório Stipp
    Caipiracicabano com muito Orgulho
    (Técnico em Contabilidade, Contador, Advogado).

    • Joseli em 03/05/2013 às 17:37

      Me lembro de tudo isso.Morava nesse bairro até os 15 anos.E de meu pai vcs se lembram:Capitão Siqueira.
      Joseli

  2. maria elisabeth simoni gouveia em 12/06/2015 às 15:42

    Minhas lembranças vão para o Sr Passareli ( acho que assim se escreve), ao lado do Politeama. Balas de coco queimado, docinhos finos. Essa t lembrança tem cheiros, sabores e doces memórias.

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