Bravos soldadinhos salesianos

Foto: Rafaela/Olhares

 Viver vive-se vivendo (14)

Piracicaba, nos 1940, parecia não ter grandes e graves conflitos sociais, como se a Guerra unisse as pessoas pelo medo. Na verdade, eles, os conflitos, estavam apenas escondidos e tudo caminhava como se fosse um destino. Ricos eram ricos, pobres eram pobres. E negros, negros, chamados de pretos; brancos, brancos. Era evidente, no entanto, que viviam em separado, nos clubes, nas ruas. A convivência fazia-se num código de silêncio, nas casas, nos quintais. Mas patrões eram patrões e empregados, empregados. Nas escolas públicas, meninos brancos e negros conviviam, mas as diferenças sociais ficavam às claras. E, nos colégios particulares, os alunos eram quase que apenas brancos. Portanto, mais do que convivência, devia apenas haver coexistência.

Muitas vezes, pensei que minha imaginação de jornalista e de escritor se formou ouvindo histórias contadas por meus negros queridos, pessoas que trabalhavam com meus pais ou que se tornaram agregadas da família. Lembrei-me sempre, até chegar-me a velhice, com saudade intensa da gorda e despachada Zulmira, a cozinheira que ajudava minha mãe em casa e nas comidas do “Café Imperial”, a negra Zulmira que, às escondidas e à noite, recebia amantes em seu quartinho nos fundos. E me lembro com emoção de um dos meus amores infantis, sua filha Zuleika, linda como uma princesa de ébano. E Lula, a mulata sensual e alegre diante da vida, cantarolando pela casa? Lembro-me de Vó Tereza, avó de Joãozinho, o Joãozinho Feliciano, que se envaidecia de dizer-se “pajem” meu, pois cuidava de mim, pajeava-me.

Nos quintais daquela esquina da rua Moraes Barros com a Praça José Bonifácio, nos da rua São José, nas cercanias do Hotel Lago, pulávamos os muros, ns indo às casas dos outros. No quadrilátero das ruas Prudente de Moraes e São José, tudo se fazia através dos muros: vizinhos emprestavam xícaras de arroz ou de café, crianças saltavam de um para outro quintal. E meu paraíso, o meu mundo, o universo onde aprendi a ser uma pessoa feliz eram os espaços de minha casa à casa de Guto, filho de Dácio e de dona Nenê de Souza Campos. Eram dois muros e dois quintais que, em vez de nos separar, nos uniam. Pular de um para outro era como viajar da Terra à Lua. Viajávamos.

Foi em 1949 quando, sem maiores avisos, o Colégio Assunção apenas comunicou que encerraria os cursos mistos, de meninas e meninos, ficando apenas com o feminino. Os meninos teriam que procurar outras escolas, deixando o Externato São José. Era o Colégio Dom Bosco chegando. E, para mim, mudar do Assunção para o Grupo Moraes Barros foi-me a descoberta da existência de dois mundos por assim dizer antípodas: a escola pública, a escola particular. Na escola pública, por mais avançado se dissesse ser o ensino, a educação era precária. E as crianças, tratadas como números, objetos. Já era assim. O tempo apenas acentuou o desrespeito que, enfim, se tornou quase que absoluto já no final do Século XX.

Foi Guto quem me seduziu com a idéia de estudar no “Dom Bosco”. Meu querido Guto, companheiro inseparável, que a morte levou tão cedo. Gorducho, lento, seu talento esportivo estava no tênis. Não nos largávamos e até as namoradinhas de meninice tinham que ser amigas entre si. Se eu era o Zorro, Guto tinha que ser o Sargento Garcia; se eu era o Batman, ele era o Robin. E Cidinha, filha adotiva de dona Rosa, dona do Hotel Lago, era a “mocinha” que precisávamos salvar em sua prisão nos porões, nosso encontro precoce com o feminino.

Com a chegada dos padres salesianos e o anúncio da instalação do “Dom Bosco”, Guto enchia-me a cabeça com promessas e fantasias: “Os padres dão um uniforme militar com capa e espada. Não sei se dão cavalo também, mas a espada é certeza. Nós vamos ser como a Polícia Montada. Ou como a Legião de Honra”. Meu amigo querido, mais ingênuo do que eu, alma de pomba, tão limpo e puro que os céus o levaram para, com certeza, pouparem-no de tempos cruéis.

Chegando a Piracicaba em 1949, instalando-se em 1950, o “Dom Bosco” começou com um estilo militar muito ao gosto da época. Energia, valentia, disciplina rígida, estudo sério, esportes intensos – mas com o rigor exagerado e até mesmo prepotente de alguns pares, especialmente o que assumia a função de “Padre Conselheiro”. O diretor, um homem bom, padre Pedro Baron. Era como funcionava: o Padre Baron, generoso e amigo; o Conselheiro, Padre Ismael, rígido, chegando à beira da crueldade.

Era, sim, disciplina militar. E os uniformes, garbosos. O de gala, todo branco, com marcas azuis, para solenidades especiais, desfiles, criando o “Batalhão Branco” dos salesianos, aplaudido pela cidade. E o uniforme do cotidiano – cáqui, com túnica de botões enormes, camisa branca e gravata preta – que nos sufocava em dias de calor.

Autoria: Cecílio Elias Netto

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