Coisas de “fazer bem”, de “fazer mal”

Foto: J. Pedro Martins/Olhares

Viver vive-se vivendo (10)

Neste início de século XXI, ano 2006, há, ainda, quem acredite em benzedeiras, benzeções, simpatias. Pode-se, então, imaginar como tenha sido naqueles já distantes anos 40, 50, até mesmo os 60 do século passado. Eram crenças que – diante do pragmatismo e da racionalidade fria que tomou conta do mundo – parecem bonitas. Isto é: que, sendo lembradas e revistas, revelam a verdadeira beleza de um jeito, de um estilo de viver. Ora, todas as gerações falaram de tempos anteriores, que seriam melhores do que os do presente. Sempre foram melhores. Pois as dores são esquecidas e ficam quase que apenas as lembranças cada vez mais doces, como se a doçura delas aumentasse com o tempo que passa.

Piracicaba foi uma cidade de doçuras, um mundo onde crenças, superstições, lendas, mentiras contadas por gente adulta às crianças, histórias de carochinha e da beira-rio acabaram criando um universo por assim dizer mágico. Podia-se ir em busca do pote de ouro com a certeza de encontrá-lo. Eram tempos de parteiras, de benzedeiras, de rezadeiras.

Uma das mais famosas e respeitadas, em meados do século passado, foi, com certeza, dona Carolina Martins,a Carolina Benzedeira, também conhecida como Carolina do Inácio. Ela benzia verrugas, nó de tripa, vermes, lombriga, fazia partos, orientava as mulheres sobre higiene, saúde, prevenção de doenças.

Aqueles eram tempos, também, de coisas que “faziam bem” e de coisas que “faziam mal”. Dona Carolina sabia de todos esses segredos e mistérios da vida. Havia coisas que “faziam bem” e ninguém, no entanto, falava delas. Namorar, por exemplo. Sempre foi bom namorar, “fazia bem”, mas os pais sonegavam a informação aos filhos, especialmente às filhas. “Fazia bem” comer banana com aveia. E “fazia bem” o insuportável óleo de fígado de bacalhau – a odiada Emulsão de Scott – que os pais, para horror das crianças, nos enfiavam boca a dentro. Uma colher de Emulsão de Scott, ainda que “fizesse bem” martirizava as crianças. E ai de quem vomitasse! Pois teria que tomar outra dose.

Muitas e muitas coisas, no entanto, “faziam mal”. Ninguém explicava porquê, mas sabia-se que”faziam mal”. No fundo de meu baú de lembranças, há uma gula que, ainda hoje, me acompanha, dando-me água na boca, mas que não se podia saciar: manga verde com sal. Era uma gostosura, mas “fazia mal”. Dava dor de barriga e até poderia matar. E também “fazia mal”, a ponto de tirar a vida das pessoas, misturar manga verde com leite. “Fazia mal” comer melancia antes de dormir, pois, inevitavelmente, os fantasmas iriam aparecer no sonhos, eles e as assombrações. “Fazia mal” tomar banho após o almoço, pois podia dar congestão.

Diz-se que, em questão de comida, coisas que “fazem mal” nos acompanham desde o começo do mundo. Para Aarão e Moisés, Deus, segundo os livros, teria mostrado animais que não poderiam servir de alimentos, impuros, “ruminantes ou de que possuam a úngula fendida”. Não escaparam o coelho, a lebre e o porco. E os tabus continuaram ao longo dos tempos. Assim, das coisas que “faziam mal”, mal fazia, por exemplo, comer carne na Sexta Feira da Paixão; “fazia mal” chupar cana e beber água, pois podia dar diabetes; “fazia mal” deixar comida no prato, pois poderia fazer falta depois; “fazia mal” olhar-se no espelho à luz do sol, pois podia entortar a boca; “fazia mal” abrir guarda-chuva dentro de casa, pois alguém da família poderia morrer.

Estendiam-se em direção ao infinito as coisas que “faziam mal” e, no entanto, eram muito poucas as que “faziam bem”. Estas, quase todas, eram restritivas, moralistas, moralizantes, rígidas. “Fazia bem” tomar banho frio todos os dias, incluindo invernos rigorosos. A castidade, dizia-se, “fazia bem” para os moços, especialmente os atletas, pois as energias ficavam retidas, circulando pelo sangue, músculos e nervos.

Quando os padres salesianos chegaram a Piracicaba, em 1950, a lista das coisas que “faziam mal” aumentou. Eles trouxeram Deus e o inferno juntos. Masturbação, além de mandar para o inferno, “fazia mal” numa dimensão espantosa: podia deixar o rapaz cego dos dois olhos, tuberculoso, desmemoriado ou louco, impotente quando de um pretenso futuro casamento, aumentava as espinhas, etc. Pela fila das confissões, no entanto, parece que a moçada não levava o terror muito a sério…( Ilustração: Araken Martins)

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