Himalaya Mustang Sangrilá, cidadão do mundo

Na década de 1970, um piracicabano, então desconhecido de sua própria cidade, retornou a Piracicaba após muitos anos de ausência. Era filho de Vila Rezende. Mas se consagrara, no mundo, como grande fotógrafo, possuidor de cerca de 1 milhão de negativos de personalidades, paisagens, cenas que visualizara nos continentes por onde passara. Seu nome artístico: Himalaya Mustang Sangrilá, responsável pela maior exposição de murais de que se tinha conhecimento, mil murais, no C.C.R.Cristóvão Colombo. O texto, como registro de uma personalidade também polêmica e folclórica, é de Roberto Antônio Cera, a pedido de A PROVÍNCIA.

Onde hoje é o banco HSBC, o mesmo casarão restaurado não passava de um sombrio prédio decadente, em cujo piso superior chegara a funcionar o Centro Acadêmico Luiz de Queiroz e, na época, era ocupado por uma república de estudantes. Naquele início dos anos 70, o Cecílio já tinha fechado o seu jornal “Folha de Piracicaba” para se unir ao “Diário de Piracicaba”, dirigido por Sebastião Ferraz, que funcionava no piso térreo do prédio, começo de uma nova etapa jornalística, criando “O Diário” e dando início a uma revolução jornalística, na cidade, chegando ao desafio de, alguns anos depois, transformá-lo em um dos primeiros jornais impressos em off-set, no país.

Eu trabalhava no Banespa que, na época, impedia que seus funcionários exercessem qualquer outra atividade, registrada em carteira profissional, o que impediu o meu registro na profissão, embora tenha recebido, durante décadas, diplomas, congratulações, ofensas e até processo judicial, como jornalista. Todas as noites, após o jantar, velho amigo do Cecílio, eu me dirigia à redação, onde permanecia até o fechamento do jornal, após o quê, saíamos para tomar lanche em algum bar ou boteco da cidade, para bater-papo, enfim.

Em uma dessas noites, ao chegar à redação, o Cecílio apontou para um moço que estava sentado em uma das mesas, e me contou que era um piracicabano, que viajava pelo mundo todo e que estava voltando, em visita à cidade. Fui conversar com ele, que me contou ser o Himalaya Mustang Shangrilá. Fiquei assustado e ele me disse que era o cognome com que era conhecido no oriente, onde vivia fotografando paisagens e locais perigosos, curiosos e misteriosos, com a sua Hasselblad, para revistas geográficas e de turismo. Daí o seu cognome. Templo dos milhões de deuses.Madurai,Índia

O nome real era Zilmo Telles de Freitas, “filho do Zé Tellinho”, da Vila Resende. Abriu uma pasta 007, em cujo interior estavam agrupados milhares de negativos fotográficos, que passaram a ser transformados em clichês, pelo então clicherista Henrique Spavieri, antes de descobrir seu talento fotográfico. Eram utilizados para ilustrar seus artigos diários e para comprovar a veracidade do que contava, porque o Mustang – era assim que passamos a chamá-lo – fazia questão de aparecer nas fotos.

Nós não esperávamos que a permanência do Mustang, na cidade, passasse de algumas semanas, mas ele acabou ficando meses. Suas colunas, que algumas vezes chagavam a uma página do jornal, faziam enorme sucesso e ele era convidado para palestras em clubes de serviço, escolas e jantares, o que fazia graciosamente e com o maior prazer. Realmente, ele era uma pessoa misteriosa, pouco sabíamos do seu passado. Veio só e eu, como era solteiro, acabei sendo uma das pessoas que lhe faziam maior companhia, principalmente nos passeios noturnos. Era, também, um sujeito completamente fora dos padrões da época, e que sentia falta da liberdade que encontrava no oriente, nas sessões sexuais, liberdade que conhecíamos via literatura, mas que se assemelham , praticamente, às da modernidade. Hoje, garanto, o Mustang seria uma pessoa absolutamente normal.

Escrever sobre o Mustang, lembrar de coisas e acontecimentos, que estavam à margem das nossas lembranças e que vão se aflorando aos poucos, dariam matéria para várias crônicas. Vou encerrar, lembrando da maior das suas façanhas em Piracicaba:

Não entendo o motivo, mas o Mustang achava que devia à cidade mostrar o valor de um seu filho, até onde chegara, por este mundo afora. Foi ao Cecílio e falou que iria fazer uma exposição de mil painéis fotográficos, de um metro quadrado cada um, com suas fotos, nos locais mais estranhos e recônditos do mundo. Todos acharam que isso seria uma loucura. Pois a loucura acabou sendo maior, ainda. O Mustang visitou estabelecimentos comerciais, indústrias, enfim qualquer um que lhe pudesse ajudar a concretizar sua façanha. A cada visitado, que lhe oferecia ajuda, entregou um painel, de idêntico tamanho, como sinal de agradecimento. Portanto, não é preciso ser matemático para concluir que ele acabou fazendo uma exposição para o povo de mil murais e oferecendo um outro ao patrocinador, muito mais do que mil murais, uns mil e quinhentos, porque algumas firmas lhe patrocinaram mais de um mural. Certo?

No dia do aniversário da cidade, nas dependências da sede central do Clube Cristóvão Colombo, lá estavam, mal se podendo caminhar entre elas, as

grandes fotos, como ele havia prometido, além de uma exposição de moedas, também dos locais que visitara, só para calar a boca de um colecionador local,que escreveu ironizando e duvidando que ele pudesse fazer isso.

O Mustang deixou em seus amigos saudade, mas também mágoa. Mas isso é assunto para qualquer dia.

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