Inesquecíveis Juquita, Evinha, Júlio

Foto: Daniel Trein/Olhares

Viver vive-se vivendo (16)

Todas as cidades têm os seus “tipos populares”. E cada um de nós carrega, ao longo da vida, os seus “tipos inesquecíveis”, pessoas que nos marcaram, presenças que ficaram. Muitas vezes, os “tipos populares” se tornam inesquecíveis. E noutras, os inesquecíveis podem não ter sido populares.

Como que numa mitologia piracicabana, ficou-nos “Nhô Lica”, o nosso Fernão Dias caipira, catador de pedras que, para ele, eram diamantes. Mas as cidades crescem, praças e jardins tornam-se agressivas, as ruas esvaziam- se, os contatos humanos rareiam – e quase não mais se tem tempo de olhar para os lados e esbarrar em tipos populares, que continuam existindo mas que, incrivelmente, parecem não mais ser vistos.

Ainda nos 1950/60, além de Nhô Lica, houve outros. O “Espetete” marcou, ainda que as crianças o temessem, homem que podia tornar-se violento por força da bebida. O “Espetete”, grandalhão e magro, andava pelas ruas com seu linguajar próprio. O mundo e a vida, para ele, tinham uma só rima, “ête”. O sorvete era mais do que um sorvete: era “sorvetete”. Para xingar pessoas, ele gritava: “Ô, lazarentete.” O mundo estava “durete” para viver. E se alguém embravecia, “Espetete” dizia falar daquele jeito por “brincaderete”.

Havia o elegante “Juquita de la Carne Fraca”, que tinha a cara do “Amigo da onça”, personagem de Péricles, em “O Cruzeiro”. Juquita usava terno branco ou muito claro, gravata, sapatos sempre brilhantes. Era um “gentleman”. Solteirão, morava num quartinho na rua Benjamin Constant desde quando, naquela rua, estava a zona do meretrício. Falava-se de um grande amor em sua vida, tido e havido naquela rua. E que, por decepção amorosa, passara a beber. Juquita, de quando em quando, desaparecia. Sabia-se, então, que ficara em seu quartinho, bebendo e curtindo a ressaca. Quando saía da tristeza, prometia nunca mais beber. E, não cumprindo a promessa, justificava-se: “la carne é fraca.” Tornou-se, então, o nosso “Juquita de la carne fraca”.

E Evinha? Evinha foi uma das mais admiráveis dessas figuras. Mulher pequenina, magra, frágil, Evinha vestia-se toda de branco, de um branco imaculado. À tarde, era encontrada sempre num dos últimos bancos da Igreja Matriz, depois Catedral. Ou na Igreja do São Benedito. Quem a visse, haveria de confundi-la com uma virginal “filha de Maria”. E Evinha era a mais competente e discreta cafetina de Piracicaba, uma cafetina especial, dedicada a marcar encontros entre homens e mulheres casados ou articulando-se com moças de famílias respeitáveis. Seu orgulho, sua vaidade, seu código de honra: nunca se envolver com menores. Para os clientes de confiança, Evinha fizera, de sua pequena casa, um randevu aconchegante. Ela marcava os encontros, cedia a casa, ficava na igreja esperando o casal ir-se embora.

E, ainda agora, parece possível rever Júlio Bruhns, o estranho Júlio Bruhns, acompanhado de sua mulher, dois bruxos, levando um cachorro viralata preso a uma corda. Da família Bruhns, surgiria o imenso Thomas Mann e Júlio se orgulhava de seu parentesco, ainda que ninguém o levasse a sério. Mas Júlio trabalhara no jornal “O Estado de São Paulo”, era um poliglota: conversava em árabe com meu pai; em japonês com o Tanaka; em grego com Noedy Krahenbull. E, de madrugada, passava na casa de meus pais, chamando-me para andar pelas ruas da cidade, onde e quando me contava histórias de Piracicaba. E falava da vida e fazia bruxarias.

De todos os “tipos inesquecíveis” que ficam na vida das pessoas, acabo acreditando que, na minha, o mais marcante e ainda presente seja Júlio Bruhns. Com medo de passar por mentiroso e inventor de histórias, não conto o que vi Júlio Bruhns fazer. Mas, vivo estivesse o Carmo Petrocelli, ele seria testemunha do que tenho a contar. Pois o Carmo, em seu posto de gasolina, pedia e Júlio, quase vizinho dele, atendia: tirava lápis de garrafa com a força do olhar; atirava o molho de chaves que ficava grudado na parede. Ilusão de óptica? Mágica? Bruxaria? Sei lá. Mas que existia, existia.

Autoria: Cecílio Elias Netto

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