Monsenhor Rosa, santo de dar medo

 

A ilustração foi feita nos anos 60 por Edson Rontani.

Viver vive-se vivendo (12)

A impressão que me fica é a de que Monsenhor Rosa, vigário da antiga Matriz de Santo Antônio, era o verdadeiro dono de Piracicaba. Durante os anos da II Guerra, de que me recordo – e nos mais próximos que a sucederam – tudo o que se fazia na cidade, pelo que eu ouvia dos adultos, tinha que passar pelo crivo de Monsenhor Rosa. Ou, então, precisava ser feito sem que ele soubesse.

Fui deixando a meninice ouvindo coisas como “lá vem o Monsenhor Rosa”; “cuidado, Monsenhor Rosa está chegando”. Ele tinha um defeito nos olhos e arrastava-se pelas ruas. Humilde e pobrezinho, tinha, no entanto, tal majestade que as pessoas como que se curvavam ao vê-lo. Na verdade, eram tempos em que o clero se impunha pela força do mistério mesmo num mundo laico e abalado em seus valores. Ou por causa disso, pois os horrores da Guerra abalaram estruturas familiares, certezas morais. E Monsenhor Rosa era a rocha dogmática, o homem que parecia saber dos segredos de céus e de infernos.

Se ele os conhecia, não sei. Mas, com toda certeza, os segredos da cidade, ele os conhecia todos, os escondidos das pessoas, a vida clandestina, as ambigüidades, desejos, paixões, abafados em moralismos que ainda sobreviviam. Monsenhor Rosa era o guardião de uma moralidade que se ia rachando. Ora, que pecados podem cometer crianças de sete, oito anos? Pecados infantis parecem, agora, impossíveis. Mas, nos tempos de Monsenhor Rosa, todos éramos pecadores: jovens, velhos, crianças. E, se fossem protestantes, mais pecadoras, ainda, as pessoas. E, se maçons, o inferno seria pouco. Meu pai era maçom, morávamos na esquina da Catedral, as procissões passavam em frente ao “Café Imperial” onde papai fazia o que diziam ser o melhor sanduíche de Piracicaba, “de pernil com cebola”. Os que sobrevirem ao tempo, ainda dizem o mesmo, nestes primeiros anos do século XXI: “o melhor sanduíche”. Não sei se Monsenhor Rosa comeu daquelas delícias inventadas por meu pai , mas sei que D. Ernesto de Paula, primeiro bispo, deliciava-se com os quibes que minha mãe lhe enviava. D.Ernesto, por quibes, cometia o pecado da gula e ninguém saberá se foram, os que mais lhe davam água na boca, os feitos em minha casa ou os quibes de dona Alzira Maluf, de dona Mariana Kraide, não sei. O fato é que D. Ernesto deliciava-se com os quibes feitos por minha mães, mesmo sabendo ser, ela, mulher de maçom.

Com sete, oito anos, lá me ia eu, também, confessar-me de meus pecados, gravíssimos segundo a doutrina da Santa Madre Igreja e de pastores de igrejas protestantes. Eu, pecador: por brigar na rua, e espiar mulher trocando de roupa através da fechadura das portas, por brincar de médico com Cidinha. A criançada, depois da Primeira Comunhão, era obrigada a confessar seus pecados uma vez por semana. Pois bem. Se dava sensação de violência a “obrigação de confessar-se”, tornava-se terror se, no confessionário, estivesse Monsenhor Rosa, com aquele olho esquisito, a cara amarrada… Mas, hoje, admito: não sei se ele fora sempre daquele maneira carrancudo, se já eram coisas da velhice. Pois – quando se me aproxima a minha própria carga de idade – não sei, eu também, se minhas carrancas são impaciências diante de tolices, se rabugices desse tanto viver. A velhice traz-nos o sentimento da compaixão. E impaciência diante de tolices.

O fato é que, sabendo estar no confessionário aquele santo mas severo homem, o terror aumentava. Pois surgia a grande dúvida: que pecados contar, o que era pecado, quais os cometidos? Monsenhor Rosa esmiuçava, queria saber e, como se fosse máquina de tortura ou de repetição, perguntava talvez sem saber para quem: “Fez porcaria? Quantas vezes? Sozinho ou com quem?” E uma criança de sete oito anos ficava aterrorizada ou, então, com vontade de rir. Mesmo porque, após a Guerra, os bares de Piracicaba – Nova Aurora, Leiteria Brasileira, Giocondo, Brasserie, entre outros – recebiam uma juventude animada, altiva, disposta a viver a liberdade. As moças usavam decotes cada vez mais audaciosos, para alegria dos rapazes e festa nos olhos de todos.

Ora, como foi possível ter-me sido proibido revelar os meus pecados de criança? Pois Monsenhor Rosa interditou-me. Fiquei, naquela idade, proibido de ir ao confessionário. Foi, de uma certa maneira, alívio, mas havia uma satisfação a dar à família, a parentes, a professores que perguntavam: “quem comungou, quem foi confessar?”

Aconteceu que, tentando prever o que Monsenhor Rosa iria me perguntar – além de meus terríveis pecados – estudei bravamente os 10 Mandamentos sagrados. Ele perguntava essas coisas: os mandamentos da Lei de Deus, os 5 mandamentos da Igreja, os 7 Sacramentos. Estudei oas tábuas da lei, do primeiro ao ordenamento. Ajoelhei-me para confessar e, assim que terminou de perguntar de meus pecados -“fez porcaria sozinho ou com quem?” – Monsenhor Rosa sabatinou-me: “E os Santos Sacramentos, quantos são?”

Fiquei feliz, senti-me vingado. Só não percebi que ele perguntara sobre Sacramentos, não sobre Mandamentos. Respondi, vitorioso: “Os Santos Sacramentos são 10!” Ele me mandou para fora da igreja e que eu voltasse apenas quando soubesse tudo de cor, na ponta da língua. Não sei porque, aquele olhar do velho padre, de tão frio, pareceu-me ser azul.

Confesso, pois, não saber se Monsenhor Rosa foi esse santo de que falam, se foi o horror de que me lembro. Sei, apenas, que os meninos daquele tempo tínhamos muito mais medo de diabos e de demônios do que amor a Deus e aos santos. Era uma religião do medo, da morte que se mostrava às crianças, uma religião sem amor e sem alegrias. Ora, já naqueles tempos, crianças e adolescentes não suportavam prisões e opressões. Como agora. Pressionados e acuados, fogem, vingam-se.

Lembro-me de, entre assustado e feliz, ter-me vingado do Monsenhor Rosa. Foi quando fumei o primeiro cigarro. Eu tinha nove anos. E não me confessei do pecado horrível: o cigarrinho na boca, Cidinha no porão. (Ilustração: Araken Martins)

2 comentários

  1. José Antonio Roncato em 07/11/2012 às 18:27

    Que pena que o Monsenhor Francisco Rosa não possa responder a essa reportagem e dar a sua versão sobre os fatos aqui citados.

    Aliás, nem mesmo Dom Ernesto de Paula.

    Será de quem era melhor o quibe: da dona Alzira Maluf ou da Dona Mariana Kraide? Ficaremos novamente sem saber a verdade.

    Assim fica fácil demais. Fala-se da vida dos mortos e o esperto é quem está vivo e ganha fama fazendo os outros rirem.

    Será que essas "peripécias" infantis ocorreram realmente? Ou seriam "mentirinhas" próprias da imaginação de criança.

    Assim não vale. É deslealdade para com aqueles que nos precederam na Fé.

    Abraços a todos.

  2. Linneu Stipp em 21/03/2013 às 23:29

    negadinha provinciana

    já contei não faz mal repetir

    Monsenhor Rosa tinha o hábito de entrelaçar as mãos e os dedos, fazendo girar os polegares.

    E um dia,

    Reuniu-se com os fiéis para organizar uma procissão, dizia, nois vai pela Boa Morte, lá na Ferraz de Carvalho nois vira a isquerda, depois nois dece a Governador, sempre girando os polegares para a frente…

    Alguem perguntou, Monsenhor e se chover…

    Nois vorta depressa, agora girando os polegares indicando retorno..

    Bem o Santo está na Patria Espiritual, acho mesmo que vai ficar esperando o preclaro e eu, para a prestação de contas…

    Contei tá contado…

    Subo preparado com alguma desculpa né?

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