…e havia um “Céu Cor de Rosa”

Vivi com crianças e moços. Mas o pouco que aprendi foi com os mais velhos. Acho que nasci com curiosidade inesgotável. E ainda a tenho. Perguntar e perguntar, querer saber – parece ser essa a sina de minha jornada. Descobri tesouros, encontrei desencantos. Pois, quando nada se sabe, tudo é surpresa, novidade, descoberta. É o mistério da primeira vez. Que, de tanto se repetir, acaba levando ao drama da banalidade e mediocridade, maldições que enterram preciosidades.

Sempre me reporto a histórias que me foram contadas por Thales de Andrade, o notável piracicabano que me marcou a vida tão fundamente. Contando-me como escrevera o livro “Saudade” – que acompanhou gerações e gerações de brasileiros – Thales observou que fora advertido, por um de seus amigos literatos, sobre a dificuldade de crianças entenderem o que significava saudade. Professor primário – “professor de roça”, como gostava de dizer-se – Thales fez um teste com alguns alunos de sua escola rural.

“O que você entende por saudade?” – perguntou Thales de Andrade, ao menino Pedrinho. E Pedrinho respondeu: “Eu sinto saudade das férias no sítio de minha avó.” E Joãozinho: “Eu tenho saudade do doce de abóbora de minha tia.” E, do fundo da classe, Zezinho respondeu, lágrimas nos olhos: “Eu tenho saudade de minha mãe que morreu.” Thales convenceu-se de que criança também sabe o que é saudade. E que a sente.

Atribui-se a Ruy Barbosa – pelo que sei – uma explicação da palavra saudade, um dos mistérios da língua portuguesa. Para ele, saudade é “vontade de outra vez”. Logo, somente é possível ter saudade do que foi bom, do agradável, do belo. E do memorável generoso, que ficou na memória. Portanto, não há quem não tenha, dentro de si, alguma “vontade de outra vez”. De alguém, de um lugar, de um tempo, de uma época, de um sabor, de um sentimento. De minha parte, quanto mais caminho pelo tempo – e quanto mais vejo a voracidade das devastações – mais saudade tenho de minha terra. E mais me aumenta a “vontade de outra vez”, como que desejando algo se repita para encantar as atuais gerações.

Foto: Valdir Belavista/Olhares

Por isso, nada podendo fazer, eu conto. E canto. Ainda parodiando Thiago de Mello: “Faz escuro mas eu canto.” Mesmo porque amanhã será outro dia. E, passada essa densa neblina da transição confusa, a claridade virá. E, então, surgirão e ressurgirão raízes, o princípio das coisas e de nós mesmos. A Piracicaba que eu ainda amo está viva porque guardada no coração de milhares de pessoas silenciosas, emudecidas a fórceps pelos alaridos das novidades passageiras. Tufões passam. Tudo o que tiver raízes fica.

Recordando-me da descrição do escritor português – “a escola, então, era risonha e franca” – posso dizer, com emoção, que minha terra, também e então, era risonha e franca. Era uma cidade que teve ruas – que não conheci – de nomes encantadores: rua da Praia, rua das Flores, rua da Quitanda. E que ainda mantém ruas com nomes singulares: do Porto, da Glória, do Rosário, Boa Morte, entre muitas outras. Há, ainda, pessoas idosas que chamam a rua Governador pelo nome antigo: “Rua do Commercio”.

Risonha e franca, Piracicaba teve casas comerciais com nomes tão especiais que pareciam feitos apenas para nós mesmos, que dávamos o nome dos donos a muitas delas: Farmácia do Zé Raya ou do Zezinho ou do João Sachs; Bar da Loura, Dito Alfaiate, Loja do Natan, incluindo até mesmo a “Casa da Ruth”, na zona do meretrício, como a ter uma também nossa Casa da Mãe Joana.

Parece ter, ainda, sobrevivido a Arca de Noé, não sei ao certo. Mas foi nome genial de uma loja árabe onde havia um pouco de tudo. E a poesia e a esperança de algumas lojas, cujos nomes já eram encantadores? Havia um armazém de nome Nova Era, e um bar chamado Nova Aurora, um hino à paz, logo após o término da Ii Guerra Mundial. E a mais do que secular A Porta Larga, que desapareceu como que indignada diante das devastações desrespeitosas?Alguém conhece alguma Porta Larga, como foi, desde o século 19, a loja engrandecida pela família Maluf? E a Loja da Lua, na esquina da Alferes com Prudente de Moraes, do Octávio Jacinto?

Risonha e franca, minha terra teve – por dezenas e dezenas de anos – um céu cor de rosa, por mais sombrios fossem os tempos, por mais cinzentas as nuvens. Era o “Céu Cor de Rosa”, do Jorgito Chaddad,loja queridíssima na rua Governador. Como foi possível uma cidade ter permitido se fechasse um céu cor de rosa? Devia, no lugar onde era a loja, haver uma placa com inscrição para todo sempre: “Aqui, existiu o céu cor de rosa”.

Ou não é para se ter vontade de outra vez?

 

3 comentários

  1. Luiz Bastos em 16/03/2013 às 19:18

    Cecílio, e tinha o "Bar Maravilha de Bar" perto da rodoviária urbana, numa esquina da Rua XV.

  2. Urbano Zotelli em 14/02/2014 às 22:56

    Olá, Cecílio, e havia também a loja “O GAROTO CHIC” .

    Olá, Cecílio, e havia também a loja “O GAROTO CHIC” .

  3. Chico França em 18/03/2015 às 11:00

    Ainda temos, na rua do Commercio, a Casa Santa Rosa, do Wahibo, firme na “lujinha”.
    Tudo é passageiro, exceto o cobrador e o motorneiro.

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