Um pequeno correspondente de guerra

Foto: Hugo Coelho/Olhares

Foto: Hugo Coelho/Olhares

Viver vive-se vivendo (19)

O certo, quando me perguntam de meu ingresso no jornalismo, seria dizer que o fiz aos meus quatro anos de idade. E na condição de correspondente de guerra. Ou de observador das trincheiras alemãs. O alvo era seo Pink, o alemão que tinha uma sorveteria num espaço do Café Imperial, de meu pai, onde nasci e está, neste 2006, o Banco Sudaméris. Guardo, ainda hoje e dentro de mim, muito viva a excitação daqueles tempos da II Guerra Mundial. Apenas não consigo entender como uma criança, de idade tão tenra, podia captar a complexidade daquilo, como se ouvisse todos os sons, até mesmo os de bombas estourando e de coturnos pisando o chão.

Meu pai ficava de ouvidos colados a um velho rádio de válvulas, desses que existem apenas em museus. E, no seu bar, iam homens sérios, de terno e gravata, comer sanduíche de pernil e falar sobre a guerra, os perigos da ditadura nazista, a loucura de Hitler. Muitos anos depois, descobri que eram maçons, aqueles homens. E meu pai, também. E que os maçons não suportavam a idéia de uma ditadura universal.

Lembro de seo Pink, o alemão, mas, na realidade, os preconceitos, a raiva, muitos ódios também se voltavam contra todas as forças que apoiavam a loucura hitlerista, incluindo italianos e japoneses. E, por extensão, iras e idiossincrasias se estendiam a todos os estrangeiros, não importavam as suas origens. Árabes eram vistos com suspeitas por serem árabes. E mesmo os judeus, as grandes vítimas da sanha demoníaca de Hitler, eram olhados como se fossem culpados de alguma coisa. Parecia que a perplexidade diante da guerra levava a raciocínios tortos mas convenientes: Também, se não fossem os judeus, nada disso estaria acontecendo. Buscavam-se culpados, esquecidos, todos, de que, desgraçadamente, a história da humanidade é feita de guerras e de violências.

Seo Pink era um alemão gordo, vermelho, homem bom. Eu sabia ser um homem bom, apesar de alemão, tido como inimigo de guerra. Naqueles tempos, o preconceito contra alemães foi terrível. Lembro-me do que dizíamos, a criançada, nas ruas, quando um que outro alemão passava: Alemão batata come queijo com barata. Seo Pink era discriminado, essa a verdade. E não interessava se ele se considerava brasileiro, se tinha filhos nascidos no Brasil, se amava este país e nossa cidade. Interessava, apenas, que ele era alemão. E, portanto, o inimigo.

Não consigo descrever exatamente como era aquele casarão onde nasci, onde estava o bar, onde se dizia que seo Pink fizera seu bunker, pobre homem discriminado. Do bar à casa, havia uma escadinha de madeira. E uma outra, de alvenaria, que descia da cozinha para o quintal. Desse, para a rua, ia-se através de um portão por cujas grades eu via Nhô Lica carregando suas pedras. Janelas grandes – ou eram grandes por eu ser tão pequeno? – se abriam para a rua Moraes Barros e, à frente delas, passava o bonde. Havia como que um porão por trás da sorveteria de seo Pink, logo à entrada do bar. O teto do porão era o assoalho de minha casa. Não sei se meu pai e os amigos maçons abriram frestas, se elas eram já da velhice do assoalho, o fato é que, através delas, dava para olhar o que acontecia no bunker de seo Pink. Quem entrava, quem saía, se havia reuniões.

Foge-me, também, à compreensão que a mim, então com quatro ou cinco anos, me fosse dada a incumbência de espionar o seo Pink, um correspondente de guerra, um observador das linhas inimigas ou, então, apenas um xereta. Diz-se que na guerra, como na guerra. Na verdade, na verdade, porém, o que eu fazia era xeretice, coisa feia de se fazer: espiar e espionar o seo Pink. Mas eu me sentia importante, informando o meu seleto público, meu pai e seus amigos maçons: Ele está conversando, tem dois amigos com ele. Tolamente, eles me perguntavam se dava para ouvir o que falavam. Ouvir, dava. Mas entender, não. De alemão, tudo o que mais me deslumbrava eram as fotos da Marlene Dietrich às portas dos cinemas ou nas revistas de minhas irmãs.

Estive, pois, com quatro ou cinco anos de idade, a serviço das forças aliadas, investigando as frentes alemãs inimigas e relatando, como correspondente de guerra, os graves e grandes planos que o Führer tinha para dominar o mundo. No entanto, ficou-me, de toda aquela lembrança, uma imagem dolorida que, mesmo embaçada pelo tempo, parece refletir aquela época sombria: seo Pink, o homem bom, com os olhos tristes, a fisionomia cansada, personalidade germânica de rudeza aparente …

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