Um pequeno matador

Viver vive-se vivendo (11)

As almas são bordadas com filigranas estranhas. Nunca, talvez, haveremos de saber qual o segredo, mas é como se, ao abrir os olhos para o mundo – escapando do aconchego do útero – a criança já visse a história escrita por antecipação. Conforme a alma que recebe, tal será a sua caminhada. Para escritores, os céus tecem almas de porcelana. Frágeis. Uma brisa pode transformá-las em estilhaços. E, de estilhaço em estilhaço, lá se vão essas almas construindo histórias pessoais.

Contei-o muitas vezes, conto sempre, mas parece, ainda hoje, não bastar-me conta-lo. É como se o primeiro estilhaço de alma ainda me acompanhasse. E, então, lá estava eu, nos meus seis anos de idade, transformado em pequeno matador. Eu, matador – eis como me vi, como ainda me vejo. E, nas minhas mãos trêmulas, um passarinho também trêmulo, aquele tremor de medo ou de morte de que, ainda agora, não me esqueço. E, em minhas mãos, a mancha de sangue, gotículas apenas, mas o sangue da morte, o sangue do inocente.

Matei o passarinho. E de maneira tão gratuita e sem sentido e sem explicação que aquela morte me acompanha. O nome de um outro amiguinho meu, filho da lavadeira do Hotel Lago, era Zezo. Um dia, uma de nossas vizinhas – impaciente, infeliz, envenenada de seus preconceitos arianos – enxotou-nos do muro onde estávamos pendurados, talvez fugindo dos “bandidos” ou querendo encontrá-los. Vendo-nos no muro, ela gritou: “Sumam daqui, negrinho sujo, turquinho sem vergonha…” Eu era o “turquinho sem-vergonha”; Zezo, o “negrinho sujo”. E, no entanto, nem ele havia percebido que eu era neto de árabes, nem eu vira que ele era negro.

Foto: Levi Vermelho/Olhares

Foto: Levi Vermelho/Olhares

Zezo era mestre em estrepolias. De um pedaço de madeira, fazia um cavalinho-de-pau, um revólver de brinquedo. E, de forquilhas de galhos de árvores, conseguia fazer estilingues que despertavam a inveja de toda a vizinhança. Zezo, o rei dos estilingues de nossos quintais, o guerreiro inimitável, capaz de espantar gatos, cães, de fazer voar urubus e de afugentar “bandidos”. Eu me admirava de vê-lo manejar o estilingue, embasbacado com sua pontaria, com a frieza com que ele atingia alvos inanimados e animados, gente inclusive.

Eu sentia inveja, mas tinha medo de manejar o estilingue, de atirar. Até que, um dia, o Zezo pediu que eu o guardasse, que sua mãe não podia saber, acho que havia matado uma galinha ou um galo, já não me lembro. E o estilingue ficou guardado num canto de um ranchinho, diante de meus olhos, provocando, provocando…

Vi quando o passarinho caiu na nossa armadilha. Era uma judiação, covardia. Com visgo de jaca – sei lá, eu, se crianças, hoje, sabem o que é jaca, o que é visgo de jaca – untávamos gravetos de árvore, espalhávamos alpiste, sementes de mamão, milho, pelo chão. Ciscando e bicando a terra, os passarinhos prendiam os pés no visgo de jaca, ficavam impedidos de voar, indefesos e a mercê da fúria assassina de Zezo e do meu oculto desejo de matar, sem saber que estava apenas oculto. Então, naquela manhã, vi o passarinho aprisionado no chão. E o estilingue, ao alcance das mãos. Resisti. Mas resisti por pouco tempo.

Tomei do estilingue, apanhei uma pedrinha, vi, pela forquilha, o peito do passarinho, estiquei o elástico, estiquei, lancei a pedra, como um guerreiro lança a flecha em direção ao peito do inimigo. De repente, eu era Robin Hood e o pobre passarinho, um dos comparsas dos nobres ingleses. Vi quando a pedra lhe atingiu o peito. E ele caiu. O meu foi um grito de pânico. Pedi socorro. Eu tinha matado, sabia que tinha matado. Ninguém me atendeu, como se o primeiro castigo fosse aquela solidão, a certeza de estar sozinho e de precisar responder por meu crime.

Deus é testemunha de que tentei salvar o passarinho, pensando-lhe o peito com água e algodão. Cuidei dele, não me lembro mais se eram minhas lágrimas ou o sangue dele que me marcavam as mãos, pois as minhas eram lágrimas de sangue. Mas tudo foi inútil. Ele tremeu, tremeu, não consigo parar de pensar nos olhos opacos do passarinho, inquietos e passivos ao mesmo tempo. E, num último estremecimento, morreu.

Minha mãe me deu uma caixa de sapato. Não sei porque, fiz uns furos e, nela, coloquei o passarinho. Abri uma cova, enterrei-o. Com gravetos de árvore, fiz uma cruz, plantei-a no túmulo dele. Por alguns dias, fiquei indo e vindo, velando o corpo que matei. Depois, esqueci. Mas do que jamais consegui esquecer foi de ter matado um passarinho. Ficou-me na alma, um bordado em vermelho. Que nunca mais deixou de doer. Talvez, para lembrar-me: “eu, matador.”

Autoria: Cecílio Elias Netto

(Ilustração: Araken Martins)

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