Apostar na decência.

Já no final dos 2006, os indícios tornaram-se cada vez mais fortes: o cansaço diante da corrupção que se tornou universal, o cansaço diante de um estilo de vida desgastante e sem sentido. E cansaço diante daquilo que Ruy Barbosa já advertira: “de tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.”

Não foi à toa que, num dos nossos comentários finais de 2006, encerramo-lo com uma afirmação que é uma certeza: “É preciso acreditar em Deus.” E se entenda isso como um profundo respeito pelo que o ser humano tem mais de sagrado, que é exatamente essa nossa imagem e semelhança a um Deus que podemos não conhecer, que tentamos ignorar, que a racionalidade tola diz não existir – mas que é o alfa e o ômega, queiramos ou não, aceitemo-lo ou não. Não há homem sem alguma forma de religiosidade, por mais ele a negue. E são a religiosidade humana, a admissão do sagrado da vida e do mundo, que estabelecem princípios e valores. Sem eles, não há sociedade humana que sobreviva, por menor seja ela, a partir do núcleo fundamental que é a família.

O ano de 2007 surgiu com o signo de um cansaço definitivo que nos impulsiona a uma certeza renovadora de esperanças: o cansaço do jeitinho, o cansaço da corrupção, o cansaço dos compadrismos, o cansaço diante da desonra que prospera e do agigantamento dos “poderes nas mãos dos maus.” Não há mais como suportar essa pirâmidde invertida, pois comprometemos, por omissão e por silêncio, diversas gerações, não apenas no Brasil, ainda que especialmente aqui, mas no mundo. Aí estão pais e avós, aturdidos, perplexos, desorientados, sem saber que educação dar a filhos e netos: educá-los para serem espertos ou para serem dignos? Educá-los para acreditarem que o bem, o bom e o belo compensam, ou é o crime que compensa, tantas e tais as impunidades a que quase chegamos a nos acostumar.

Ser esperto, hoje, é um estigma, sinal de desonestidade, de aproveitamento indevido, de oportunismo, de pragmatismo sem referenciais. 2007 surge sob o signo da decência. O mundo quer voltar a ser decente. As pessoas precisam, ansiosa e quase desesperadamente, acreditar na decência. A dignidade é o fundamento da humanidade. Sem dignidade, a humanidade não sobrevive. E nem tem motivo para sobreviver. Quem apostar na decência, na honestidade, na ética, na moral, na fé, na esperança – esse vencerá. Podem apostar.

Para ver a luz no fim do túnel, há que se ir até o fim. E, para se sair do poço, há que se ter chegado ao fundo dele. Chegamos. Agora, é emergir.

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