Bons ou apenas cândidos?

A desordem político-partidária no Brasil é de tal forma constrangedora que, nos últimos tempos, não há mais que se falar nem mesmo em exceções, no oceano de malandragens e matreirices que devastou a classe política. Os tidos e havidos como bons não têm qualquer poder ou capacidade de influenciar os demais. E são uma tal minoria que um simples assopro das velhas raposas os coloca a nocaute. Finalmente, a vitória dos malandros parece que se consolidou, dominando partidos, câmaras municipais, assembléia legislativas, o Congresso Nacional.

No entanto, em relação aos chamados bons políticos, a essa ínfima maioria, já se começa a levantar dúvidas não quanto à sua retidão, mas, talvez, em relação à natureza dela. Seriam, eles, homens e mulheres bons ou, na verdade, estaríamos diante de um grupo de pessoas cândidas, ingênuas, até mesmo tomadas de um distanciamento quase lunático da realidade política? Pois alguns deles parecem mais angelicais do que humanos, mais promotores de alguma fé do que homens públicos conscientes de sua responsabilidade e de uma participação efetiva, realista e objetiva. São bons de discursos – aliás, quase na mesma toada – mas péssimos ou quase inúteis na ordem prática, que é a órbita da política e da vida pública.

Há alguns dias, o senador Eduardo Suplicy respondeu por algumas atitudes constrangedoras até mesmo para os seus eleitores de boa vontade, quando, por primeiro, sacou um enorme cartão vermelho para expulsar o senador José Sarney da presidência da casa. O ridículo causou tal zombaria que Suplicy quase teve, na tribuna, um ataque de apoplexia. E, de outra feita – mas certamente não a última – aceitou fazer parte do espetáculo de uma equipe de televisão, mandando às favas a compostura e vestindo uma cueca vermelha por sobre a roupa. Atitude infantil, apenas boba ou já um perigoso sinal de senilidade?

Agora, o senador Cristóvão Buarque – sem dúvida alguma, um homem honrado, culto, respeitável – saca de suas armas ingênuas ou cândidas para ameaçar toda a Mesa Diretora do Senado de botá-la na cadeia. Um ingênuo ou um tolo, distante da realidade, perdendo o senso de ridículo e de limites? Se é para “mandar para a cadeia”, melhor seria chamar, então, a força policial ou o delegado de Polícia. Para que Congresso, para que legislação, para que a ordem legal? Cristóvão Buarque perde-se, também, nesse mundo lunático que parece estar imantando um grupo de senadores e deputados, todos angelicais, dóceis, mansos, generosos, decentes, mas absolutamente dispensáveis como homens públicos, dada a inutilidade e desimportância de suas posições. Se é para se comportarem apenas como fiscais de costumes, não precisariam de mandatos populares.

O mesmo se diga da senadora Marina Silva, uma encantadora pessoa humana, mulher idealista e generosa, com um histórico de vida admirável e uma carreira política de grande respeito. Marina Silva faz questão de enxergar o mundo a partir, apenas, de seus óculos róseos de Pangloss, um mundo verde que torna a vida política, no entanto, próxima de “la vie em rose”. Pode ser, ela, um modelo de luta pelo meio ambiente, mas seu papel político – especialmente agora que, ingenuamente,. se deixa picar pela mosca azul admitindo candidatar-se à Presidência da República – não resulta em produtividade. Ela mesma deveria ser a primeira a admitir que o vôo à Presidência é muito alto para a envergadura de suas asas.

E outros bons e ingênuos caminham pela mesma trilha, tais como Pedro Simon, Heloísa Helena. Guerreiros, irmãos de fé, camaradas, mas com visão política pequenina diante de um Brasil que se agiganta e que, por ter muitos problemas, precisa de políticos com maior estatura. A santidade não faz parte da política, da mesma forma como a desonestidade não deveria fazer. No entanto, há, na política, a prática, o exercício bom do poder, a busca do resultado generoso para o povo e para a nação, uma luta insana quando sabemos ser, o Brasil, um país com 500 anos de história de saques, de compadrios, de capitanias hereditárias que apenas mudam de nome.

É uma pena que, em momento tão rico de nossa história e quando damos os primeiros passos de um gigante, estejamos com políticos tão pequeninos, entre honestos e desonestos, entre pessoas decentes e verdadeiros cafajestes. Não é de homens bons ou angelicais que o Brasil precisa a partir de agora. Precisamos de homens e mulheres fortes, firmes, à altura dos desafios mundiais. E que sejam honestos. Honestidade basta. Bondade é outra coisa e nem sempre rima com justiça.

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