Camisinhas e holocausto.

Parece até falta de assunto de alguns e falta do que fazer de outros. A tese é formidável e a teoria, dignificante ao ser humano: a atividade sexual tem que ser responsável, a banalização do sexo é suicida, a procriação está na raiz da sexualidade humana. Mas, como se sabe, a teoria, na prática, é outra. E a AIDS? E os milhões de pessoas contaminadas, a morte, a erotização quase doentia do mundo ocidental? Como é que fica tudo isso? Como pais responsáveis – sabendo que a exploração sexual invade lares, conventos, escolas, igrejas – haverá de, suicidamente, sugerir, aos filhos, que não usem camisinha? Será que bispos, pastores, padres e até o papa – se tivessem filhos e netos – seriam coerentes com a teoria e arriscariam a vida de seus familiares em nome de Deus, da fé, da doutrina, seja lá do que for?

Há um mundo ideal. Mas há o mundo real. A sexualidade humana transformou-se numa problemática que, repetindo o velho Dadá Maravilha, ainda não encontrou a sua “solucionática”. Ora erramos pelo silêncio absoluto diante de novas gerações, ora pela liberalização também absurda. A vida social e comunitária pressupõe uma estrutura global onde se incluem família, escola, igreja, trabalho, educação, convicções, a ordem moral conseguida através da repetição de consensos. Ninguém mais pode tratar da educação dos jovens a partir de um único referencial. O que se ensina em casa é desmentido nas ruas; o que se aprende nas escolas nem sempre serve para a vida social; valores espirituais são esmagados pelos apetites materiais e consumistas. Ora, se tanto se priorizou a beleza do corpo e a valorização do belo consumível, como evitar que a erotização consentida se reflita na vida de crianças e adolescentes? E se se erotizou tudo num mundo de enfermidades sexuais transmissíveis, que loucura suicida é essa de se tentar coibir o uso de camisinhas? Ora, enquanto não se começa tudo de novo, há que se ir remediando. E não acreditar nisso, mais do que tolice, é insensatez criminosa.

Mas, neste Carnaval, um novo componente repressivo surgiu, mostrando que o ovo da serpente está sendo chocado. Ainda. Trata-se da proibição legal, solicitada pela Federação Israelita, de uma escola de samba famosa sair às ruas e no desfile carnavalesco com o carro alegórico representativo do chamado Holocausto, havendo alguém fantasiado de Hitler. Ora, pode-se discutir o mau gosto da idéia e da iniciativa, talvez a sua inoportunidade, mas não se concebe tenha havido a censura prévia, a proibição legal. A liberdade sempre supôs e pressupõe responsabilidade. E isso significa que as pessoas são responsáveis por seus atos, o que implica na avaliação disso a posteriori. Censura a priori não passa de simples censura.

O chamado Holocausto é uma das manchas negras da humanidade. Mas não é a única. São manchas, também, o que Israel comete contra povos árabes e palestinos, a matança no Líbano, a sanha ocidental para a destruição do Iraque e do Afeganistão. Holocausto é, também, a exploração econômica imposta a povos e países e nações. Holocausto é a morte de milhões de pessoas pela fome enquanto os Estados Unidos gastam em armamentos, em bombas e em guerra o suficiente para transformar o mundo num lugar mais digno de ser vivido. Holocausto também é a destruição do meio ambiente por governos e empresas sem responsabilidade diante do futuro e das novas gerações.

Ora, que lugar mais adequado para se vingar da figura hedionda de Hitler senão em passarelas carnavalescas, onde se ridiculariza a infâmia, onde acontece e se realiza o “ridendo castigat mores”? Há nuvens sombrias no ar. Hitler também proibiu e censurou manifestações artísticas. Quando se tenta matar o pensamento, lança-se a semente do ódio. Ontem e hoje.

Deixe um comentário