Cartões corporativos e circo.

A perda de compostura da quase absoluta maioria de políticos brasileiros ultrapassou o limite do suportável aos piores acintes. O Congresso Nacional – com reflexos quase imediatos sobre Assembléias Legislativas e Câmaras de Vereadores – se transformou em caricatura lastimável até mesmo de rebotalhos democráticos. São atores num palco de chanchadas ao inverso: os palhaços, acreditam eles, estão na platéia, nós que lutamos por formar uma nação e um povo, nação e povo brasileiros.

Escândalos não mais causam impacto nem indignação, por terem-se transformado na matéria prima da próxima existência de Brasília. O Congresso Nacional não apenas é responsável por muito da indignidade que assola a vida brasileira, mas é usufrutuário dela, como se se alimentasse da corrupção até mesmo para se afirmar como poder. Pois aí está: ora o Congresso é provocador de escândalos – remember anões do orçamento, Renan Calheiros, Jader Barbalho, ACM, et alii – ou se alimenta deles, criando farsas para obter holofotes dos tolos programas de televisão, trapaceando o papel de Catão da moralidade nacional. CPIs são, agora, o alimento do Congresso Nacional para se justificar perante o povo brasileiro. Sem CPIs, o Congresso não existe.

Essa questão dos cartões corporativos – mais um escândalo, sim, na vida pública brasileira – é também um escândalo de farisaísmo e de hipocrisia. O PSDB e os demos fazem, caricaturalmente, o triste papel a que o PT, no passado, se reservou: o de guardião de uma falsa moralidade. Houve abusos e ainda os há, como ainda acontecerão outros. Mas não apenas no Brasil e nem apenas na esfera do poder público. Cartões corporativos são indecorosamente usados também por maus funcionários em empresas privada, em universidades, em governos estaduais, seja no Brasil seja em qualquer parte do mundo. A grande questão é que, assim que se sabe de abusos, empresas e governantes sérios punem infratores e coíbem excessos. Pura e simplesmente. Sem necessidade de escândalos e farsas de CPIs.

O PSDB e os demos – poucos partidos, como esse tal Democratas, conseguiu ter nome tão apropriado como esse, os “demos” – estão tentando paralisar o governo desde que Lula foi, novamente, consagrado pelo povo em eleições livres, limpas e honestas. Fernando Henrique finge esquecer – ou age como se fosse autista – os grandes escândalos e os abusos em seu governo, da mesma forma como se busca camuflar negociatas e bandalheiras em governos estaduais mantidos por outros partidos. O que houve, por exemplo, com a Secretaria de Habitação de São Paulo, em relação à “máfia das casinhas”, envolvendo até políticos piracicabanos? Por que o silêncio em torno disso? E o silêncio a respeito da máfia das ambulâncias, dos sanguessugas, dos vestidos da sra. Alckmin, ex-primeira dama. E os cartões – em volume absurdamente maior do que os da União – usados pelo governo estadual?

Políticos estão brincando de Catões, quando não passam de moralistas de fundo de quintal, de botinas e de conveniência. Esse hipocrisia, a farsa e o farisaísmo nada mais fazem do que comprometer ainda mais a péssima e lamentável imagem do político brasileiro diante do povo que deveria representar com mais decência e seriedade. O Poder Legislativo está suicidando-se aceleradamente. E levando, para o brejo, o sonho de uma sólida e verdadeira democracia brasileira.

 

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