Corrupção, hábito e costume.

Pessoas de bem dizem-se envergonhadas com o que, mais uma vez, está ocorrendo em Piracicaba. De um lado, elas têm motivos e razão. De outro, não. Pois vergonha é algo de se ter para quem a tem. Os que nunca a tiveram ou que a perderam não podem senti-la. A corrupção é, também, uma questão de hábito. Desgraçadamente, mas é.

O problema é que, na maioria das vezes, não nos damos conta da complexidade abismante da pessoa humana, capaz de todas as maravilhas e de todos os males. A corrupção faz parte do movimento da substância viva e, portanto, da substância humana. Corrupção é o oposto de geração. O homem se gera, constrói-se ou destrói-se. É um movimento constatado desde os tempos aristotélicos: vai de algo em oposição ao que esse algo é, do ser ao não-ser. Não é tão complicado de se entender. Basta ver a política em nível universal.

Ora, o movimento, quando se repete muitas vezes, torna-se hábito. Por isso, é, este, chamado de “segunda natureza” ou de “outra natureza”. A diferença é sutil: a natureza é “daquilo que é sempre; o hábito é daquilo que é frequentemente”. Na simplificação de tudo, o hábito passa a ser costume. Logo, a corrupção se vai tornando um costume de pessoas que não conseguem mais viver sem ele. Para perder o costume da corrupção, teriam que fazer o movimento contrário, o da geração, o de construir-se e de reconstruir-se. O homem visceralmente corrupto, no entanto, passa a acreditar de tal forma naquilo que faz que, para ele, a corrupção se torna tão natural como o ar que respira. Ser corrupto não lhe implica qualquer noção de vergonha. Pelo contrário, pode ser uma qualidade que ele próprio anuncia, apregoa e de que se orgulha.

Quando se diz que um político é esperto, diz-se, quase sempre, que ele é corrupto. Confundiram-se os termos. E, por estarem misturados, corrupção e esperteza se tornam como que sinônimos e, então, se cria o hábito de também aceitá-los. No Brasil, tornou-se hábito, fez-se costume “aceitar” que políticos sejam corruptos. Pois a corrupção tornou-se hábito e costume na política e no país.

Mentir, enganar, trapacear, negociar valores, desprezar princípios, tudo isso faz parte da corrupção em si mesma ou do processo corruptor. Nas últimas eleições de Piracicaba, quando um pastor de seita evangélica revelou que “fez um negócio” com a dupla Barjas/Thame, através do qual deu “50 mil votos” para o prefeito eleito a partir da manipulação de seus inocentes ou tolos fiéis, pouca gente estranhou. E é fácil de entender: quando a corrupção se torna hábito e costume, não há mais a capacidade da indignação, que sobra para poucos. E os poucos são tidos como tolos, chatos, inoportunos ou apenas loucos.

Se há quem tenha vergonha em Piracicaba diante do que está acontecendo, estes são, certamente, tolos, chatos, inoportunos ou loucos. Nos tempos de “é preciso levar vantagem em tudo”, não se estranha que Barjas Negri e detentores do poder façam o que fazem. Esse Brasil que se assusta, ainda, com corrupção e malandragens, assistiu, estarrecido, à cosagração de Fernando Collor, Jader Barbalho, Palocci, Genoíno, Maluf e tantos outros, incluindo Lula e José Serra, contra quem não pesaram nenhuma das graves denúncias que lhes foram feitas, muitas delas provadas. A votação maciça de Maluf foi esclarecedora de haver um eleitorado que se “acostumou” com corrupção e espertezas, pois Paulo Maluf saiu como que diretamente da prisão para um mandato em Brasília. Foi premiado.

Com Adhemar de Barros, nasceu o bordão que se tornou clássico: “Rouba, mas faz.” Em Piracicaba, já há quem fale, a respeito de tantas denúncias e escândalos: “…mas faz.” O hábito da corrupção é uma segunda natureza, tanto para a pessoa como para parte do povo.

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