E Gilberto Gil, hein?

Até hoje, há quem não compreenda a existência de um Ministério da Cultura no País. Admito estar entre eles. Como não se compreendem, também, secretarias municipais e estaduais de Cultura. Para quê tem servido, a não ser para abrir espaços ao compadrio político, vagas para cabos eleitorais, acertos entre partidos coligados ao governante de plantão? Cultura oficial é agressão aos valores da própria sociedade, pois a Cultura brota naturalmente como o suor através dos poros. Promover a cultura de um povo ou de comunidades é estar à disposição, estimular e por-se a serviço, não havendo, necessariamente, precisão de secretarias especiais ou de ministérios. O mais famoso ministério da cultura foi o de Hitler. Todos os demais seguiram – acintosa ou disfarçadamente – suas pegadas.

Os conceitos de cultura e de civilização – a “kultur” germânica, a “civilization” francesa – ainda fazem pensadores queimar pestanas e neurônios. Civilização é cultura, cultura é civilização? Onde se encontram, onde se separam? O fato é que, em uma e em outra, o Estado não pode assumir o comando, mas estar a serviço, à disposição. Por isso, antigamente, governos sábios e honestos colocavam a questão da cultura junto à Educação, numa só secretaria ou ministério, com assessorias ou comissões especiais.

Gilberto Gil como Ministro da Cultura do Brasil é um dos mais gritantes escândalos do governo vitorioso do Presidente Lula. Se tal ministério já é aberração, um ministro em permanente estado de vacância, acumulando atividades de governo com seus shows artísticos, passa a ser uma vergonha. Ora, se Gil costuma pedir licença para fazer shows e dedicar-se às suas atividades profissionais, por que não renuncia, de imediato, ao cargo? Ou por que o Presidente Lula simples e adequadamente não o afasta do cargo que, na verdade, se tornou apenas decorativo? Pois, na mais simples análise que se fizer, há que se constatar que, estando ministro, ainda que não o seja, Gilberto Gil é o maior beneficiário do cargo, promovendo-se a si mesmo e alavancando ainda mais a sua vida profissional. E não adianta ele e seus companheiros alegarem que o ministro e o artista não misturam funções, pois isso é impossível. Onde estiver o artista lá estará o ministro; onde estiver o ministro, o artista estará também.

Muitos houve que se alegraram com a queda e a saída da ministra Marina Silva do governo, ela que foi um dos ícones da luta em defesa do meio ambiente. Se ela ajudou ou prejudicou, isso apenas a história definirá. No entanto, jamais se poderá negar o trabalho, os esforços, a honestidade, a decência e a postura ética de Marina da Silva, uma figura humana que honrou o cargo e que não tirou proveito de sua posição e de seu prestígio. Com Gilberto Gil, um artista a serviço de si mesmo– de licença em licença, de viagem em viagem – a situação é inversa. Pois Gilberto Gil não diz, ainda agora, porque está no cargo. E para quê. A não ser para criar interrogações: ministro-artista, artista-ministro?

Em Piracicaba, a existência de secretarias ociosas e não explicadas dá margem perguntas semelhantes: para que, por que, para quem? Quando cultura fica atrelada ao poder, é enquadrada. Ou serve como trampolim para políticos. Em Piracicaba, isso sempre acontece. Repete-se de novo. E, quanto aos benefícios de uma secretaria de cultura ou de uma ação cultural – como secretarias de esporte, de turismo, até mesmo de trânsito – esses, os benefícios, atendem aos esquemas do poder. Comissões de pessoas especializadas e competentes, consultorias, bastariam para a vida comunitária correr com mais serenidade. Quando existiram comissões de trânsito, comissões municipais de cultura e de turismo, tudo funcionou com mais eficiência.

Mas, em política menor, a eficiência não é suficiente, se não houver ganhos eleitorais. Quanto a Gilberto Gil, a pergunta continua: o que ele faz mesmo?

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