Falta de médicos?

Não apenas em Piracicaba, mas em todo o Brasil, as prefeituras têm sentido dificuldades para a contratação de médicos e outros profissionais da área para o atendimento da saúde pública. Ao mesmo tempo, conselhos de medicina estudam, preocupados, a proliferação de faculdades de medicina em todo o país, olhos postos nas deficiências do ensino e da preparação dos profissionais. Portanto, uma conclusão primeira se impõe: não há falta de médicos.

O problema está na valorização do profissional, nos valores até insultantes que municípios pagam ao funcionalismo mais qualificado, em violento e injusto contraste com o que se paga a políticos especialmente no Legislativo. Pois o Legislativo brasileiro, em projeção mundial, foi considerado um dos mais caros do mundo, com despesas inacreditáveis se consideradas a injusta distribuição da riqueza e a miséria de povos especialmente na América Latina.

Está ficando cada vez mais óbvio e evidente que prefeitos e administrações municipais dão ênfase mais a obras que têm e que dão visibilidade, quase sempre questionáveis não apenas quanto à necessidade de realiza-las quanto à oportunidade de fazê-lo, dadas prioridades sociais mais urgentes.

Os contrastes são violentos. E, quando o povo é prejudicado em filas de Prontos Socorros, em atendimentos pelo SUS – e já começa a sê-lo até mesmo em planos de saúde particulares, inchados e revelando falhas gritantes – todas as comparações passam a ser focos de indignação e de rebeldia potencial. Um simples paralelismo entre o os vencimentos de um vereador de qualquer cidade brasileira e um profissional da saúde provoca justa e honesta perplexidade. Que inversão de valores é essa? Que pirâmide invertida estamos construindo e elaborando?

Essa é mais outra questão absolutamente de ordem e de vontade políticas. A democracia tem, no Poder Legislativo, um de seus mais legítimos e necessários instrumentos. No entanto, perde o sentido e deixa de ter significado – transformando-se em pedra no sapato da própria democracia – quando privilégios se tornam de tal forma insultantes que passam a ser motivo de comparação perigosa junto às camadas populares. Pois é inevitável, quando não há médicos em ambulatórios e em hospitais – sabendo-se dos salários indecentes que lhes são propostos – a pergunta: por que tantos benefícios a vereadores e tão pouco respeito a profissionais que atendem a saúde da população? Por que tanto desperdício com obras desnecessárias, de caráter demagógico, e tão pouco investimento sério e eficiente na ordem social?

Contrastes e confrontos embalam o ovo da serpente. Médicos, portanto, há. Falta respeito.

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