Faxina ética e estética.

Num de seus delírios místicos, Dostoievski acabou por dar forma ao sonho humano de felicidade. Ele arrancou a beleza oculta nas profundezas humanas, como se trouxesse luz a tantas sombras. E, no romance “O idiota”, profetizou: “O belo salvará o mundo.”

Em tempos de tanta feiúra, o belo começa a pedir passagem. E, auspiciosamente, brota da alma dos jovens. Eles exigem o direito à beleza, como que exaustos de tanto horror, das grosserias, de uma civilização que – por opções econômicas erradas – cavou sua cova, obrigada a escolher a sua própria barbárie. É a grande ironia: bárbaros, hoje, estão nas cidades ditas civilizadas. Pior ainda: invadem as prefeituras, tornando a sujeira oficial, a partir de outdoors e poluição visual.

Apenas tolos não vêem os sinais que nos chegam de todos os quadrantes: a humanidade cansou, saturou-se. Não há mais quem suporte o cansaço do consumismo desenfreado, de exigências sem outro sentido que não o da busca do lucro e o poder sem quaisquer escrúpulos. O mundo ficou feio. A civilidade e a politização barbarizaram-se.

É a contradição dramática: as coisas não podem, ao mesmo tempo, ser e não ser. Logo, o feio não pode, simultaneamente, ser feio e bonito. Há bens absolutos que não se relativizam, a menos que o homem aceite tornar-se algo descartável como pretendem alguns sistemas. A vida humana é um desses bens apesar de sua finitude física, histórica. É a razão de ser, o homem, senhor de direitos, pelos quais responde com liberdade e responsabilidade. O direito à vida é um bem absoluto. E, como parte dele, o direito à beleza, tão esquecido e deformado.

Beleza é harmonia. O belo é belo e aparece como belo. Por apetites econômicos, vivemos tempos em que se nos impõem o horrendo, o disforme, o desarmônico, o desfigurado como formas de beleza. E, na realidade, eles apenas horrorizam, deformam, desarmonizam, desfiguram. Sons ruidosos e ásperos não passam de ruídos e de asperezas. E, para os jovens, são apresentados como música. O que era para confortar e produzir alegria estética acaba causando insensibilidades e estimulando violências.

O direito ao belo é – hoje, talvez, mais do que nunca – a redescoberta do homem destinado ao esplendor da vida, às maravilhas, à pintura e à sinfonia que possuímos nas lonjuras do Paraíso Perdido. Ninguém poderá lamentar-se de tempos e de mundo ruins, violentos, agressivos, bárbaros e cruéis – se não ouvir, como os jovens começam a fazer, esse chamamento ancestral ao belo, tão oposto ao que nos é proposto pela ambição de lucro e de poder desprovida da visão de serviço. O poder, a política, a economia como serviço – eis o que poderemos recuperar, se o belo verdadeiro for reencontrado. Pois a verdade das coisas aparece na beleza. Não da beleza artificial e construída, dos cosméticos e das cirurgias – mas daquela chama interior escondida no coração. Acho.

Não há como fugir à visão profética de Dostoievski: “A beleza salvará o mundo.” Pois o belo é o bom, o belo é o justo, o belo é o harmonioso. A beleza da vida é um direito humano à epifania de viver. Quando, pois, tanto se fala em “faxina ética”, a retomada do belo como valor e como direito talvez possa fazer essa limpeza. A faxina que, mais do que ética, é estética. Em Piracicaba, precisa começar a partir do exemplo da Prefeitura. E bom dia.

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