Festa após festa.

Já se fala, entre estudiosos, de “monotonia do movimento”. Dos mesmos movimentos. De uma certa forma, é como a pedra de Sísifo ao contrário: em vez de carregá-la montanha acima, o mundo contemporâneo parece provocar as pessoas a empurra-la montanha abaixo, mais e mais, para um buraco sem fim. E o dramático de tudo: os mesmos movimentos, além da profunda exaustão, causa a monotonia sem fim, a falta de sentido, isso a que estão chamando, agora, de depressão. É um mundo em estado permanente de depressão. E a depressão do movimento, dos mesmos movimentos.

Uma das características dos nossos tempos é a angústia de sentir-se alheio, distante ou ausente de algo que não se sabe. É como, já se insiste nessa imagem, as pessoas vivessem, dia e noite, a sensação de estarem perdendo uma festa, não se sabe onde ou qual, mas que há uma festa da qual não fazem parte. Mesmo quando estão em outras festas, fica o vazio de não estar em alguma das tantas que parecem ocorrer em todos os lugares, em todos os momento, como se o mundo fosse uma grande, uma imensa, uma inesgotável festa. Mas não é.

Encerrou-se a festa da Páscoa, vieram outros feriados, concluiu-se a Festa das Nações, já se anuncia o Dia dos Namorados, já se preveem as festanças juninas, de Santo Antônio, São João e São Pedro. Em julho, feriado dos constitucionalistas, férias escolares. E o Dia dos Pais em agosto, para se começar tudo de novo enquanto a Primavera não vem e, logo depois dela, os preparativos para o final de ano. Na verdade, é o ciclo da vida que se reinicia e se vai completando ano atrás de ano, nos rastros das estações, das comemorações, das datas simbólicas, das liturgias.

Enquanto isso, nas ruas e nas praças e nos espaços públicos, o domínio do banditismo expulsando famílias, jovens, adolescentes, crianças. Festas, sim, mas em ambientes fechados, recolhidos, formando pequenos grupos como se fossem antigas tribos, fechadas sem si mesmas. O terrível do mundo dito globalizado foi a crueldade da fragmentação, o isolacionismo das pessoas postas no meio da multidão. O homem global não existe. Cada vez mais, ele está em sua aldeia, pertence ao seu pequeno mundo que é maior, na verdade, do que todo o universo para ele e os seus queridos.

Festa após festa, lá nos vamos, o povo perplexo, em busca de sons, de ruídos, de luzes, de cores artificiais – que impedem a leitura correta de toda a loucura que nos cerca e, especialmente, do suicídio coletivo inconsciente a que estamos sendo levados. Sísifo ao contrário, vamos empurrando a pedra ladeira abaixo, cada vez mais, cada vez mais… À beira do poço sem fim, não percebemos.

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