Greves e filme conhecido

Confesso ser, ainda hoje, um homem traumatizado pelo golpe militar de 1964. As novas gerações não conseguem sequer imaginar o que foi ver derrubados todos os sonhos, esperanças e certezas de uma época conhecida como “anos dourados”. Eu tinha apenas 23 anos, era recém-casado, minha mulher esperando o primeiro filho. Aquele mundo de grandes conquistas, livre, esperançoso – aquele mundo ruiu. Foi como se matassem a alma de um povo.

Sei, pois, o que significa a perda da liberdade, a violência oficial, o Estado tirano, a força de baionetas e de tanques de guerra. E, por sabê-lo – e por traumas que restaram de pesadelos hediondos – não me atrevo sequer a pensar na possibilidade de quaisquer formas de tiranias. Quem provou do gosto amargo, quem sentiu o cheiro fétido dos porões da ditadura não tem o direito de acreditar em nada mais além da liberdade. Que, porém, não é desordem, bagunça, licenciosidade. Liberdade tem limites e exige responsabilidade.

É preciso admitir, também, que, no governo João Goulart – derrubado brutalmente por militares – havia, sim, todo um clima de desordem, grevismo articulado, reivindicações oportunísticas, um país oficialmente conturbado. Na realidade, a grande maioria da população ansiava pela chegada de 1965, quando haveria novas eleições e o hiato pudesse ser preenchido. O golpe militar matou tudo. Proposital e oportunisticamente.

Essas lembranças amargas me vêm à cabeça diante da onda de greves que sacode o país. Tenho medo. O filme me é conhecido e o horror parece escondido, como se fosse o ovo da serpente. O Brasil – apesar das cassandras de sempre – encontrou seu destino e caminha, ainda com dificuldades, para se tornar, finalmente, uma nação verdadeira, forte, poderosa, em busca de uma honesta e legítima justiça social. Não temos, pois, mais o direito de alimentar oportunismos, seja de que lado vierem. Greves são recursos extremos, pois afetam toda uma população. Como admitir que universidades estejam fechadas já há quase quatro meses? Como entender portos parados, transportes coletivos interrompidos, rodovias bloqueadas, a própria Receita Federal criando empecilhos para a normalidade nacional?

Greves não podem ser apenas legais. Têm que ser moralmente justificadas, legitimamente propostas. Nem sempre o legal é moral. E é absolutamente imoral que todo um povo, que a nação sofram por uma onda grevista que se espalha orquestradamente. O Brasil está em construção. Há claríssimos indícios de causas político-partidárias estimulando esse grevismo alucinado. Como explicar que categorias que ganham salários de cerca de 11 mil reais façam greve por melhorias, enquanto há multidões vivendo com míseros 600 reais?

A grande realidade é que a corrupção instalada nos poderes da República contamina todo o corpo social. Os abusos de deputados federais, estaduais, de vereadores servem de exemplo e estimulam outros abusos, que se confundem falsamente com direitos. É o ovo da serpente. Tenho medo. Quem conhece a serpente apavora-se com a possibilidade de ela retornar.

A grande oportunidade, talvez, perdida foi quando da elaboração da Constituição pós-ditadura. A proposta inicial foi a de ela ser engenhada por grandes nomes da inteligência nacional, então liderada pelo honrado e sábio Affonso Arinos de Mello Franco. Eram luminares da cultura sócio-político-econômica brasileira. Depois, o projeto seria submetido à apreciação do Congresso Nacional. Ulisses Guimarães não permitiu e foram deputados e senadores que elaboraram a nova Constituição, ainda em vigor, a chamada “Constituição Cidadã”. Foi como colocar as raposas para cuidarem do galinheiro. Política é algo profundamente sério para ser cuidada por políticos.

Esse grevismo cheira a abutre. Tenho medo. Por que – antes que a serpente saia do ovo – não se reivindicar uma reforma constitucional séria, decente, digna? Mas sem raposas no galinheiro.

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