Hino é símbolo. E o XV já tem.

Temos insistido em que um dos mais graves problemas de Piracicaba é o de, num tempo de transições, quase tudo acontecer como se o passado e a história não existissem. A começar do governo municipal, o atropelo e o desrespeito a raízes e à memória são marcas significativas de que, da forma como se realiza o presente, não haverá futuro. Na própria Câmara de Vereadores – exceção feita a um que outro edil – a arquitetura honorífica de Piracicaba é banalizada, transformando em vulgarização o que deveriam ser e eram títulos dignificantes.

Agora, dá-se, na imprensa, destaque a um “hino” do E.C.XV de Novembro, como se isso fosse coisa nova e, então, um grande acontecimento. Ora, o XV de Novembro é, apesar desses longos anos de decadência, um patrimônio também histórico de Piracicaba, ainda vivo e que mereceria uma luta árdua, confiante e coletiva para a sua recuperação. XV e Piracicaba caminham de mãos dadas. E o cognome “Nhô Quim” é uma marca, uma “griffe” que identifica o clube com a alma piracicabana, numa simbiose na verdade espiritual desse valoroso espírito de caipiracicabanidade de que vamos nos orgulhando mais e mais.

Por melhor intencionado que tivesse sido o autor do “hino” – e não há qualquer dúvida de que o foi – precisaria ele, como certa parte da imprensa, ser melhor informado ou, então, relembrado: o E.C.XV de Novembro, o sempre glorioso ainda que ferido “Nhô Quim”, tem um hino oficial, já há muitos e muitos anos, cantado e entoado por todo o Brasil e gravado com vozes límpidas como, por exemplo, a do saudoso e sempre aclamado Pedro Alexandrino: “Salve o XV de Novembro, glorioso esquadrão….”, os versos iniciais. E a autoria do hino é de dois piracicabanos de escol: o falecido Anuar Kraide e o sempre querido Jorge Chaddad, o Jorgito.

O verdadeiro e único hino do E.C.XV de Novembro – registrado, música e letra, no Memorial de Piracicaba 2000, deste autor, e que a A PROVÍNCIA está reproduzindo, com a partitura – foi criado em 1949, quando o XV venceu a Lei do Acesso, primeiro clube do interior a consegui-lo. Ora, é o hino daquela glória, que acompanhou gerações, cantado com vibração nos estádios, pela torcida. Talvez, a brincadeira do “Carcanhá de pato, perna de barata…” – canto apenas folclórico que se tornou também famoso – tenha confundido pessoas. Seja, no entanto, o que for, o XV de Piracicaba tem um hino tradicional, parte de sua história que não pode ser desrespeitado como se não existisse. Hinos são também símbolos. Símbolos são signos. E cidades ou instituições que não zelem por seus significados ficam enfraquecidas.

Seria bom que “novos piracicabanos” se lembrassem de que Piracicaba tem uma história que não começa agora. E nem apenas com eles. Para que façam história, precisam respeitar o que existe. É o significado de princípio, de raízes. Cidades, pessoas e instituições sem raízes acabam desaparecendo. Ser piracicabano é mais, muito mais do que apenas nascer em Piracicaba. É viver a paixão piracicabana. E isso acontece com os que, para cá vindo e aqui escolhendo para viver, se apaixonam para sempre. E nem sempre ocorre com alguns dos aqui nascidos.

 

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